segunda-feira, 4 de maio de 2015

ESTRATÉGIA DIDÁTICA








Para cada etapa da aula, o professor precisa planejar uma estratégia didática. Mais tarde vamos  tratar de alguns métodos de ensino, mas agora precisamos deixar claro que, na introdução, interpretação, aplicação e conclusão o professor deverá valer-se de estratégias que auxiliem e garantam o êxito de cada etapa da aula. Novamente, o professor deve se fazer algumas perguntas que lhe servirão de norte: Qual é a melhor maneira de introduzir esta aula?; Como posso interpretar de maneira interessante e atraente este texto com a classe?; Que tipo de aplicação seria mais eficaz para esta aula?; Como concluir com eficácia a minha aula? São perguntas como estas que poderão ajudar o professor na seleção de suas estratégias didáticas.

Quando não se define eficazmente as estratégias didáticas, corre-se o risco da aula ficar chata e desmotivar o aluno. É possível que excelentes aulas tenham naufragado exatamente pela negligência do aspecto didático. Assim, ao planejar sua aula, o professor precisa pensar com antecedência sobre como vai agir em cada etapa. A mesmice e a falta de criatividade didática podem pôr a perder todo um trabalho sério de interpretação bíblica. O professor precisará, no entanto, prevenir-se da tentação de variar metodologia apenas por variar, sem que haja harmonia entre o método didático e o tipo de ensino a ser ministrado. É preciso haver planejamento para que tudo seja bem pensado antes de ser executado.

TOCOU O SINAL...
De posse dessas informações, o professor deverá planejar suas aulas na Escola Dominical. Não planejar é menosprezar o ensino das Escrituras e, ao mesmo tempo, demonstrar desprezo para como a tarefa do ensino. Não planejar é desrespeitar os alunos que depositam confiança no zelo do seu professor.
Não planejar é trair a confiança da própria igreja que delegou ao professor tão sublime tarefa: a do ensino.
Comparecer diante de uma classe de Escola Dominical sem um planejamento sério e bem elaborado é algo de que o professor deve fugir, pois como fiel cumpridor do seu dever leva em consideração o que o Apóstolo Paulo escreveu aos romanos: "se é ensinar, haja dedicação ao ensino" (Rm 12.7b).
Planejando com dedicação suas aulas, o professor sentirá em sua própria vida as bênçãos de realizar um trabalho para o Senhor, com a alegria de o estar fazendo com o melhor de si, explorando ao máximo suas potencialidades e sua criatividade. O professor verá no contato com os seus alunos, ao constatar o crescente interesse deles pela Palavra de Deus, a retribuição por realizar o ministério do ensino da Bíblia com amor, esforço e responsabilidade.


E quando tocar o sinal alertando para o final de sua aula, não haverá mais surpresas. Todos já estarão prontos para saírem da sala e, se for o caso, dirigir-se ao santuário para prestar culto a Deus. Os alunos sairão instruídos e alimentados por uma aula que lhes trouxe ricos e importantes ensinamentos, nos quais procurarão pautar seus passos dia após dia. Tocou o sinal, acabou a aula... começou a prova.

domingo, 3 de maio de 2015

Mulheres que Ajudaram Jesus - Lição 6





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Mulheres em Evidência

Não faz muito tempo fui convidado para ministrar em uma convenção de pastores. A minha palestra versava sobre o valor da apologética cristã no ministério pastoral. Durante os dias que ali passei naquele conclave, pude observar um debate acirrado sobre a ordenação de mulheres para o ministério pastoral. As posições estavam polarizadas e os enfrentamentos se tornaram bastante calorosos! Como não havia sido convidado para esse propósito, não tive participação ativa naquele debate.
Não é meu propósito neste capítulo tratar da ordenação ou não de mulheres ao ministério pastoral. Nem tampouco é meu objetivo entrar no mérito dessa questão emitindo um juízo de valor sobre esse assunto. Isso fugiria completamente do nosso foco aqui que é procurar entender o lugar que as mulheres ocuparam no ministério público de Jesus. Todavia acredito que precisamos conhecer o que a história registrou sobre esse assunto a fim de entendermos melhor como a mulher tem sido tratada ao longo dos anos, quer dentro da cultura judaica, cristã ou secular.

O Catolicismo Medieval e as Mulheres!

Embora o debate em tomo da participação feminina nos contextos social e religioso é bastante atual, todavia, como observaram os escritores Bonnidell Cluse e Robert G. Bonnidell, ele não é novo.1 Bonnnidell faz um excelente apanhado histórico sobre a participação feminina no movimento evangélico através dos séculos. Aqui sintetizarei essa análise.
No contexto católico romano, por exemplo, as mulheres possuem atribuições religiosas bastante limitadas. Isso se deve ao fato da analogia que o catolicismo criou entre o sacerdócio levítico e o sacerdócio católico. Sendo o sacerdócio católico uma adaptação do sacerdócio levítico, inclusive com sua função de mediador, somente homens, como era no antigo judaísmo, poderiam participar do culto. As mulheres estavam excluídas por uma série de razões. Uma delas é que a Lei considerava uma mulher, no período menstrual, cerimonialmente impura para o culto. Dessa forma o catolicismo medieval entendia que as mulheres também estavam excluídas para as atividades religiosas pelas mesmas razões.

Mulheres no Contexto da Reforma

No contexto evangélico ou protestante, no que se refere ao papel das mulheres, os debates têm se restringido à participação ou não das mesmas no ministério pastoral. Em outras palavras, a questão gira em torno da ordenação ou não de mulheres para o exercício pastoral ou para a função de liderança. Robert G. Clouse explica como é vista essa questão nas igrejas protestantes. Na maioria das igrejas, observa ele, a ordenação para o ministério se entende como a eleição de algumas pessoas que vão ocupar posições de autoridade dentro da congregação. Isso as qualifica para pregar, administrar os sacramentos e supervisionar os assuntos da congregação. Devido a importância da pregação nas igrejas protestantes, o tema da ordenação está muito relacionado com essa função.2
Com o advento da Reforma Protestante de 1517, a visão bíblica do sacerdócio universal de todos os crentes foi restaurada dentro do contexto evangélico. Seguindo o ensino neotestamentário, Lutero ensinou que o cristão era seu próprio sacerdote (1 Pe 2.9). Isso abolia a figura do sacerdote católico e também tornava desnecessária a figura de um mediador. Apesar de alguns historiadores acharem que Lutero, graças a sua grande influência, deveria ter olhado com mais atenção para a função de liderança das mulheres na igreja, ele não o fez.3 Mas ele acreditava que sob circunstâncias especiais as mulheres poderiam exercer algumas funções na igreja, como por exemplo, a da pregação.4 Essa sua posição mais maleável para com as mulheres exerceu influência entre luteranos e reformados, seguidores de João Calvino.5 Esse ponto de vista do reformador alemão se fundamentava no relato da criação. Ele acreditava que antes da queda tanto o homem quanto a mulher desfrutavam da mesma posição diante de Deus, mas com a entrada do pecado no mundo esse quadro mudou. O homem passou então a exercer a função de liderança. Por outro lado, João Calvino partia do princípio de que a mulher havia sido criada a partir do homem e como tal deveria ser subordinada a ele.

Os Anabatistas e as Mulheres

A posição dos anabatistas sobre a participação das mulheres na liturgia do culto era muito mais maleável do que a dos reformadores. Os anabatistas radicalizaram mais ainda a Reforma exigindo o batismo de adultos e a participação de leigos no ministério da igreja. Na verdade os anabatistas eram totalmente contra toda forma de elitização clerical. Não há dúvida de que esse posicionamento dos anabatistas fez com que as mulheres tivessem muito mais espaço entre eles. De fato os batistas do século XVII e os Quakers, claramente influenciados pelo movimento anabatista de onde surgiram, permitiram a participação ativa de mulheres em suas liturgias.

As Mulheres e o Movimento Pietista Alemão

Essas e outras controvérsias surgidas por conta da Reforma fez com que as igrejas institucionalizadas procurassem definir seus credos doutrinários de forma muito mais precisa. A consequência natural dessa ortodoxia foi a classificação desses movimentos como sendo de natureza sectária e herética.
Muitos cristãos não ficaram satisfeitos com esse enrijecimento doutrinário da igreja institucional e procuraram um retorno ao fervor bíblico primitivo. Passaram a enfatizar a conversão, a ansiar por uma vida mais santa e uma vida devocional mais dinâmica. Esses crentes foram apelidados de “pietistas”. Eles enfatizam a vida interior e não apenas os rituais exteriores. No movimento pietista as mulheres voltaram a ter um papel de destaque.

O Metodismo e as Mulheres

É com o movimento metodista, fundado por John Wesley, que as mulheres vão receber a visibilidade que ainda não possuíam, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos. Wesley acreditava que as restrições de Paulo quanto à função das mulheres na igreja era uma norma a ser seguida. Todavia, ele cria que Deus havia chamado a todos para a sublime missão de pregar o evangelho. Pensando assim, ele permitiu que leigos e mulheres tivessem participação ativa no seu movimento.

Os Movimentos de Reavivamento e as Mulheres

Entre os anos de 1725 e 1770, os Estados Unidos foram abalados pelo que se chama comumente de “O Grande Avivamento”. Tendo origem nas igrejas reformadas holandesas, influenciando posteriormente as igrejas congregacionais da Nova Inglaterra, esse avivamento trouxe conversões em massas e gerou também o famoso pregador Jonathan Edwards. Nesse avivamento, as mulheres tiveram uma participação especial. A mais famosa delas foi Sarah Osborn que desenvolveu um ministério público de pregação. Um outro avivamento, que se seguiu a esse, denominado de “O Segundo Grande Despertamento”, ocorreu em meados do século XIX. Cerca de dois terços dos convertidos nesse movimento eram mulheres que em sua grande maioria estavam na casa dos trinta anos. Esse fato fez com que as mulheres também tivessem proeminência dentro desse movimento.
Com o advento do pentecostalismo no início do século XX, o papel da mulher na igreja ganhou muito mais expressão. Todavia, o mesmo fenômeno que ocorreu dentro de outros movimentos evangélicos passados se repetiu dentro do pentecostalismo e a posição de liderança das mulheres ficou outra vez limitada.6
Observa-se que embora as mulheres tenham exercido diferentes funções dentro do movimento protestante, o protestantismo se manteve sempre conservador ao restringir a função de liderança eclesiástica ao sexo masculino.

O Movimento Feminista e as Mulheres

No contexto secular o movimento feminista surge com a bandeira que promete acabar com toda e qualquer discriminação que existe contra a mulher.
De acordo com a Enciclopédia Barsa, o movimento feminista defende a igualdade de direitos e status entre homens e mulheres, que devem ter garantida a liberdade de decisão sobre suas próprias carreiras e padrões de vida.7 A origem desse movimento está associado à revolução francesa de 1789. Durante esse período de convulsão social o sistema político e social então vigente na França e no resto do Ocidente foi abalado. Ainda de acordo com a Barsa, esse movimento “encorajou as mulheres a denunciar a sujeição a que eram mantidas e que se manifestava em todas as esferas da existência: jurídica, política, econômica, educacional, etc. ”8
Como se observa, esse movimento de contestação francês em seu início centrava-se mais na conquista de direitos civis para as mulheres, situação que viria a mudar radicalmente no século XX. O movimento feminista contemporâneo acredita que a mulher vive marginalizada e oprimida pela cultura masculina, descrita por ele como patriarcal e machista. Pensando nisso, o movimento procura denunciar os supostos mecanismos psicológicos e psicossociais que favorecem essa marginalização ao mesmo tempo em que oferece recursos que possibilitem à mulher se livrar dessas amarras. Acreditam que somente assim a mulher se torna livre em seu corpo e em seus desejos! Fundamentado nessa tese, reivindica a interrupção voluntária da gravidez (aborto) a radical igualdade nos salários e o acesso a postos de responsabilidade.9 Em muitos países esse movimento tem se tornado radical entrando constantemente em confronto com as autoridades constituídas.10

Jesus, o Judaísmo e as Mulheres

Pois bem, tendo dado essa visão panorâmica sobre como foi tratado o sexo feminino ao longo dos séculos, é nosso objetivo agora voltar para a Palestina do primeiro século a fim de entendermos como Jesus tratou as mulheres.
Tem causado espanto em muitos pesquisadores o relato dos evangelhos sobre a participação feminina no ministério público de Jesus. Essa admiração existe em razão da atenção que os evangelistas, especialmente Lucas, dão às mulheres.11 O relato lucano mostra que as mulheres tiveram participação ativa no ministério de Jesus. “E aconteceu, depois disso, que andava de cidade em cidade e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do Reino de Deus; e os doze iam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios; e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras que o serviam com suas fazendas” (Lc 8.1-3).
O escritor José A. Pagola destaca essa atenção especial que o terceiro evangelho dispensa às mulheres. “Em seu relato aparecem personagens femininos de uma força extraordinária: Maria mãe de Jesus, Isabel, Ana, a viúva de Naim, a pecadora na casa de Simão, suas amigas Marta e Maria, Maria de Magdala, uma mulher anônima que tece elogios à sua mãe... Lucas tem um interesse especial em apresentar Jesus curando mulheres enfermas —a sogra de Simão, a mulher que sofria de hemorragia, a anciã encurvada, Maria de Magdala, da qual liberta “sete demônios” (8.2). Também sublinha sua compaixão e sua ternura com a mulher pecadora (7.36-50), com a viúva de Naim (7.11-17), com as que saem chorando ao seu encontro no caminho da cruz (23.27- 31).12 Pagola destaca ainda que essas “mulheres são seguidoras de Jesus e acompanham os Doze: Maria Madalena; Joana, mulher de Cuza; Susana e ‘muitas outras que o serviam com seus bens’ (8.1-3). Quando os varões abandonaram Jesus, elas permanecem fiéis até o fim junto à cruz (23.49). São elas as primeiras a anunciar a ressurreição de Jesus, embora os discípulos não acreditem nelas (24.22). O Evangelho de Lucas nos ajudará a olhar a mulher como Jesus a olhava, para defender sua dignidade e para fazer com que elas ocupem em sua comunidade o lugar que lhes corresponde”.13
Essa forma de enxergar a mulher, não a tratando como objeto como fazia, por exemplo, o antigo judaísmo, era totalmente inusitada na Palestina dos dias de Jesus. Jesus, portanto, mudou o paradigma que via as mulheres como “coisa” e não como um ser especial formado por Deus.
Assim como Pagola, outros teólogos têm procurado também entender o papel desempenhado pelas mulheres nas comunidades da Palestina dos dias de Jesus. Dentre eles estão J. Jeremias, John P. Meier, Gerd Theissen e os escritores Ekkehard e Wolfgang Stegemann. A obra desses autores procura reconstruir a vida cotidiana das mulheres nos dias bíblicos.14 John P. Meier, por exemplo, em sua obra Um Judeu Marginal observa que embora Lucas não use o substantivo mathetes ou a sua forma feminina equivalente mathetria para se referir a uma discípula, todavia o substantivo masculino em sua forma plural hoi mathetai pode ser usado em referência tanto para homens como para mulheres.
O que pode ser afirmado, diz Meier, com razoável probabilidade sobre a existência ou a natureza de discípulas em torno do Jesus histórico? Para começar, havia seguidoras? E, se havia mulheres seguindo Jesus em um sentido literal e físico, eram elas chamadas ou consideradas “discípulas” durante a vida de Jesus? Tais questões, embora pareçam simples, são surpreendentemente difíceis de responder. Na verdade, quando várias passagens do Evangelho falam em geral de grupos de “discípulos” com Jesus, sem maiores especificações sobre a composição do grupo, é lícito assinalar que o substantivo masculino plural hoi mathetai pode ser entendido inclusivamente, pois pelo menos alguns substantivos masculinos plurais em grego eram entendidos assim (p. ex., o masculino plural hoi goneis para “pai [pai e mãe]”). Ao contrário da tendência contemporânea do uso no inglês dos Estados Unidos, o masculino plural em grego admite uma interpretação inclusiva se o contexto não dá outra indicação. Portanto, a forma gramatical hoi mathetai poderia se referir a discípulos masculinos e também femininos. Pode-se montar um argumento para mostrar que Lucas em particular interpreta o plural dessa maneira, embora ele nunca use clara e diretamente mathetai apenas para um grupo de mulheres.15
O fato de um grupo de mulheres serem citadas como seguidoras de Jesus tem chamado a atenção dos estudiosos. Isso mostra que a missão do Filho do Homem não se limitou aos excluídos economicamente, mas também aquelas que haviam sido excluídas socialmente. É possível observar que essas mulheres, embora discípulas de Jesus, não se sentiram constrangidas a renunciar os seus bens. Como bem observou Meier, se assim tivessem feito não poderiam servir de forma contínua a Jesus e a seus apóstolos (Lc 8.1-3).
O contraste existente, portanto, entre o tratamento que Jesus deu às mulheres e aquele que elas recebiam da sociedade de seus dias é de fato enorme. Na verdade, Jesus promoveu uma verdadeira “inversão” de valores naqueles dias. O objeto passou a ser sujeito! Os escritores Ekkehard e Wolfgang Stegemann na obra História Social do Protocristianismo, fizeram resgate histórico sobre a participação feminina nas culturas do mundo mediterrâneo. Citando o escritor judeu Filo de Alexandria, contemporâneo de Jesus, eles resumem o pensamento que se tinha sobre as mulheres no judaísmo do primeiro século.
“Praças, reuniões do conselho, tribunais, associações, ajuntamentos de grandes massas e o relacionamento cotidiano a céu aberto, por meio da palavra e da ação, na guerra e na paz, são apropriados apenas aos homens; o sexo feminino, em contrapartida, deve cuidar do lar e permanecer em casa; mais exatamente, as virgens devem (ficar) nos aposentos mais retirados e encarar as portas de acesso como seu limite; as mulheres casadas, por sua vez, as portas da casa. Pois há dois tipos de complexos urbanos, casas (oikíai); destes dois, com base na divisão, os homens têm a direção dos maiores, que constitui a administração da cidade (politeia), e as mulheres dirigem os menores, as chamadas economias domésticas (oikonomía). A mulher, portanto, não deve se preocupar com qualquer coisa que vá além das obrigações da economia doméstica.”16
Por outro lado, as culturas gregas e romanas eram muito mais flexíveis com a participação das mulheres na vida pública. Mas, de uma forma geral, a cultura oriental era bastante rígida com a participação feminina na coletividade. Ainda sobre a presença feminina na vida pública na Palestina nos dias de Jesus, o escritor e historiador J. Jeremias destaca que as mulheres não podiam sair de casa sem terem seus rostos cobertos por uma espécie de burca. Dessa forma não era possível nem mesmo reconhecer seu rosto. E conhecido o caso de um sacerdote que mandou açoitar a própria mãe porque não a reconheceu por causa da indumentária que ela vestia! Jeremias destaca que a mulher que saía de casa sem ter a cabeça coberta, que dizer, sem o véu que ocultava o rosto, faltava de tal modo aos bons costumes que o marido tinha o direito, até mais, tinha o dever de despedi-la sem ser obrigado a pagar a quantia que, no caso de divórcio, pertencia à esposa, em virtude do contrato matrimonial.17
As regras do decoro, observa ainda J. Jeremias, proibiam encontrar-se sozinho com uma mulher, olhar para uma mulher casada, e até mesmo cumprimentá-la. Seria vergonhoso para um aluno de escriba falar com uma mulher na rua. Aquela que conversasse com alguém na rua ou ficasse do lado de fora de sua casa podia ser repudiada sem receber o pagamento previsto no contrato de casamento.18 Isso nos permite entender outros textos dos Evangelhos onde Jesus aparece conversando com mulheres! No Evangelho de Lucas, por exemplo, vemos Jesus dialogando com as irmãs Marta e Maria e no Evangelho de João a clássica história da samaritana. Até mesmo os apóstolos, que acompanhavam Jesus de perto, admiraram-se dessa ousadia do Mestre.

Mulheres que tiveram um Encontro Pessoal com Jesus

Aprecio o esboço feito pela escritora Wanda de Assumpção sobre as mulheres que tiveram um encontro pessoal com Jesus. Ela divide em quatro grupos todas as mulheres que de alguma forma se encontraram com Jesus. No grupo das que tiveram Jesus como seu sustento e consolo, estão: Ana, a profetisa, a viúva de Naim e a viúva pobre. No grupo das mulheres que tiveram Jesus como a sua justificação, estão: a pecadora que ungiu os pés de Jesus e a mulher adúltera. No grupo das que tiveram Jesus como a cura, estão: a sogra de Pedro, a mulher com hemorragia, a mulher curvada por enfermidade, a mulher siro-fenícia e Maria Madalena. Por último, no grupo das mulheres que tiveram Jesus como a água viva que sacia a sede, encontram-se: a mulher samaritana, Marta, Maria de Betânia, a mãe de Tiago e João e Maria, a mãe de Jesus.19
De todas essas histórias, a narrativa sobre a mulher pecadora que ungiu os pés de Jesus se mostra como uma das mais belas e fascinantes. Ela mostra que Jesus valorizou as mulheres e devolveu-lhes a dignidade perdida.

“E rogou-lhe um dos fariseus que comesse com ele; e, entrando em casa do fariseu, assentou-se à mesa. E eis que uma mulher da cidade, uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento. E, estando por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-los com os cabelos da sua cabeça e beijava-lhe os pés, e ungia-los com o unguento. 
Quando isso viu o fariseu que o tinha convidado, falava consigo, dizendo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora. E, respondendo, Jesus disse-lhe: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. E ele disse: Dize-a, Mestre. Um certo credor tinha dois devedores; um devia- lhe quinhentos dinheiros, e outro, cinquenta. E, não tendo eles com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Dize, pois: qual deles o amará mais? E Simão, respondendo, disse: Tenho para mim que é aquele a quem mais perdoou. E ele lhe disse: Julgaste bem. E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta regou-me os pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com unguento. Por isso, te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama. E disse a ela: Os teus pecados te são perdoados. E os que estavam à mesa começaram a dizer entre si: Quem é este, que até perdoa pecados? E disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz” (Lc 7.36-50).
Algumas deduções são possíveis a partir desse texto:

1. A mulher pecadora era “cobiçada” pelos homens, mas não se sentia amada por Deus.

Essa mulher que ungiu os pés de Jesus, que não deve ser confundida com uma outra mulher citada no capítulo 12 do evangelho de João, trazia o estigma de ser “pecadora”. Esse adjetivo significava que ela era uma mulher de vida “livre” ou mais popularmente uma “prostituta”. Isso a excluía da vida religiosa e da vida em sociedade. Não há dúvida de que essa mulher, sempre disponível para os homens, sendo cobiçada por eles, não se sentia uma mulher amada.
É somente quando ela encontra o Senhor Jesus que ela de fato vai saber o que é se sentir realmente amada. Jesus fez com que a mulher pecadora se sentisse perdoada por Deus.

2. A mulher pecadora levava consigo um frasco de perfume, mas não conseguia encobrir o fedor do seu passado.

O fariseu que convidou Jesus, ao observar a cena da mulher ungindo o Senhor, pensou: “Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora”. Esse fariseu tinha o olfato refinado para sentir o cheiro do “pecado”. Pela lei, aquela mulher de fato era uma pecadora! O fariseu e todos os presentes ali sabiam disso. Parece que aquela mulher fedia a pecado.
Foi somente quando teve o contado com o Mestre que o seu pecado e consequente o seu passado foram esquecidos diante de Deus. Agora ela não fedia mais a pecado, mas tornara-se o bom perfume de Cristo (2 Co 2.15).

3. A mulher pecadora vendia o seu corpo, mas não conseguia comprar a paz.

O que de fato essa mulher procurava e buscava com intensidade era encontrar a paz! Ela tinha os homens à sua volta, ganhava dinheiro com seu corpo, mas não conseguia encontrar a paz. Jesus mostra-lhe que ser amada por Deus e perdoada por Ele é o que importa. A paz vem quando o perdão de Deus é derramado em seu coração.

4. A mulher pecadora derramou diante de Jesus tudo o que tinha para que Deus juntasse o que havia sobrado dela.

O relato lucano diz que ela ungia o Senhor. Ela derramou tudo o que possuía de mais precioso sobre o Senhor. O seu gesto de entrega e de arrependimento possibilitou o Senhor restaurá-la por completo. A sua vida, que se encontrava fragmentada em retalhos foi totalmente reconstruída.

5. A mulher pecadora aprendeu que a Lei condena, mas a graça perdoa!

A Lei puniu aquela mulher, a graça a perdoou! A Lei a excluía, a graça a abraçou! A Lei foi dada através de Moisés, a graça e a verdade vieram através de Jesus Cristo (Jo 1.17).

José Gonçalves

NOTAS

1 CLUSE, Bonnidell & CLOUSE, Robert G. eds. Mujeres En El Ministério - cuatro pontos de vista. Editorial CLIE, Barcelona, Espanha.

2 CLUSE, Bonnidell & CLOUSE, Robert G. eds. Mujeres En El Ministério - cuatro pontos de vista. Editorial CLIE, Barcelona, Espanha.

3 LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas, volumes 1 ao 10. Rio Grande do Sul: Editoras Sinodal/Concórdia/Ulbra, 2004.

4 “A Bíblia não é contra as mulheres serem pregadoras do Evangelho. Jesus ensina a todos, inclusive as mulheres. Na Bíblia há vários exemplos claros de mulheres usadas por Deus na pregação da Palavra. O Espírito Santo distribui soberanamente Seus dons para o bem comum da igreja e estes não são condicionados pelo sexo, 1 Co 12:1- 11; 141. Vemos, no SI 68.11, a citação de uma grande companhia que anuncia as boas-novas, sem citar o gênero, portanto as mulheres estão incluídas. O profeta Joel, na promessa do derramamento do Espírito, destaca que “as filhas profetizarão” e as “servas” receberão o Espírito, isto é, anunciarão a Palavra do Senhor, 2.28,29”. (SCHIMIDT, Alaid Schiavone. Pequena Enciclopédia de Temas Femininos. São Paulo: Arte Editorial, 2007).

5 Idem, pp.18-19. 

6 Para um estudo mais aprofundado veja a obra: Mujeres Em El Ministério - cuatro ponto de vista (Mulheres no Ministério - quatro pontos de vistas. Editorial CLIE, Barcelona, Espanha.

7 Barsa Planeta Internacional.

8 Idem. p.222.

9 Barsa, p.224.

10 A revista IstoE, periódico semanal da editora Três, trouxe uma matéria intitulada: “O Movimento das Antifeministas” (13/8/2014). A matéria destaca que “para um número cada vez maior de mulheres jovens, o feminismo é um movimento ultrapassado, cheio de ideias equivocadas". O movimento antifeminista é formado por mulheres de 18 a 24 anos que, por meio de sites e redes sociais, defendem ideais contrárias ao feminismo. Consideram as ideologias feministas contraditórias. São várias essas comunidades: “Mulheres Contra o Feminismo”, “Filosofia Feminista”, “Antifeminismo”, “Resistência Antifeminismo Marxista” e “Moça, Não Sou Obrigada a Ser Feminista”. A bandeira do antifeminismo defende que a mulher pode ser livre independentemente do feminismo; que uma mulher tem o direito de optar por atividades domésticas; para uma mulher ser plenamente feliz, ela pode ter opiniões contrárias ao feminismo; ser feminista é lutar contra as falácias feministas e que a mulher pode lutar por igualdade sem ser feminista.

11 Podemos perceber também a teologia carismática de Lucas nas referências ao Espírito Santo nas vidas de Maria, mãe de Jesus, e Isabel. Lucas registra, por exemplo, que “Isabel ficou possuída pelo Espírito Santo” (Lc 1.41 ) Por outro lado, o anjo de Deus disse a Maria:“Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do altíssimo te envolverá com sua sombra” (Lc 1.35).

12 PAGOLA, Antônio José. Lucas — o caminho aberto por Jesus. Petrópolis: Editora Vozes.

13 Idem. p. 19.

14 Isso não significa que estou endossando aqui tudo o que esses autores afirmam em suas obras sobre os Evangelhos e a pessoa de Jesus. E clara, por exemplo, a influência do secularismo liberal sobre as obras desses autores quando tratam sobre a questão do “Jesus histórico”. Baseados em critérios totalmente subjetivos e arbitrários, esses autores decidem quais textos dos evangelhos são de natureza histórica e quais não são.

15 MEIER, John P. Um Judeu Marginal - repensando o Jesus histórico, volume três, livro um. Rio de Janeiro: Editora Imago.

16 STEGEMANN, W. & STEGEMANN, Wolfgang. História Social do Protocristianismo — os primórdios no judaísmo e as comunidades de Cristo no mundo mediterrâneo. Editora Paulus/Sinodal. 2004.

17 JEREMIAS, J. Jerusalém no Tempo de Jesus - pesquisa de história econômicosocial no período neotestamentário. Edições Paulinas, São Paulo.

18 Idem. p.475.

19 ASSUMPÇÃO, Wanda. Mulheres que Tiveram um Encontro Pessoal com Jesus. São Paulo: Mundo Cristão, 2006.

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quinta-feira, 30 de abril de 2015

BATEU O SINAL, ACABOU A AULA!


Como planejar com eficácia sua aula

Se é ensinar, haja dedicação ao ensino (Rm 12.7b).
Quase todos nós já passamos pela experiência de ver um professor da Escola Dominical ser surpreendido pelo soar do sinal anunciando o término da aula. Muitos são os professores e alunos que vivem se queixando do pouco tempo reservado para o estudo em classe. Alguns professores chegam dizer, frustrados, que a aula terminou exatamente quando começava a tratar da melhor parte do seu conteúdo.

A questão não é falta de tempo e sim de planejamento. Quando não há planejamento da aula, não importa o tempo a ela reservado, tudo sairá atabalhoadamente dando a impressão de que está faltando algo. Quando existe planejamento, mesmo que o tempo seja curto, haverá produtividade e satisfação na aula dada. O problema não é o tempo, reafirmo, mas o planejamento.
O planejamento de uma aula para a Escola Dominical deve levar em consideração vários fatores.

Vamos examiná-los.

O CONTEÚDO
Trata-se do que será ensinado. A resposta a algumas perguntas nos informa qual o conteúdo de uma lição: Qual o principal ensinamento da lição a ser estudada? Quais são as principais informações a serem transmitidas e que relação têm com o ensinamento principal? Qual a relação com a lição da semana anterior? A definição clara do conteúdo vai ajudar o professor a se manter fiel ao desenvolvimento de sua aula.

É triste quando um professor entra na classe sem ter a nítida compreensão do conteúdo da aula que vai dar. Tenho ouvido relatos de professores que sequer sabiam o assunto da lição, no momento em que iam aplicá-la. São os improvisadores que se iludem, iludem a outros e prestam um desserviço à causa do ensino das Escrituras em nossas igrejas. O professor precisa saber em profundidade o conteúdo que pretende ensinar aos seus alunos.

Toda lição tem um ensinamento principal, naturalmente que deste emanam outros que, mesmo secundários, são também importantes e necessários. A transmissão e assimilação desses ensinamentos são imprescindíveis numa aula. O professor há que identificar no estudo do texto bíblico da lição, e na própria lição, quais são os ensinamentos secundários e qual é o principal. Ao fazê-lo encontrará o conteúdo de sua aula. Encontrado o conteúdo, terá achado o caminho por onde deverá se conduzir durante a aula. Ao se conduzir por ele assegurará o êxito de sua docência.

O conteúdo é o primeiro fator a ser levado em conta no planejamento da aula. A clara compreensão do conteúdo exigirá esforço e concentração do professor. Ainda neste livro daremos algumas dicas sobre como estudar um texto da Bíblia, identificar conteúdos e extrair ensinamentos das Escrituras e contextualizá-los aos nossos dias.

EXTENSÃO E TEMPO
O professor, ciente do conteúdo, já tem uma idéia da quantidade de informações e de ensinamentos que precisará transmitir. Necessitará fazer um trabalho de seleção de conteúdo, priorizando as informações e ensinamentos que se harmonizem de forma mais plena com a mensagem principal a ser transmitida. O professor estabelecerá uma relação entre a quantidade de informações e de ensinamentos práticos com o tempo disponível para que os mesmos sejam transmitidos. Feito isto, determinará em seu planejamento prévio quanto tempo usará para cada parte da aula. Este planejamento é de suma importância para não se cair no erro de usar muito tempo com um determinado aspecto da lição em detrimento de outros.

Aconselhamos, de modo geral, a seguinte distribuição do tempo de uma lição:

Abertura (5%)

Ao começar a aula, o professor poderá conceder à classe um momento, breve, de confraternização. É a hora dos alunos se cumprimentarem, de se apresentar os visitantes e de se fazer uma ou outra comunicação de interesse da classe. É uma espécie de quebra gelo, muito importante para o início de uma aula.

Introdução (10%)

O professor vai estabelecer a relação entre o que vai ser e o que foi estudado na semana anterior.
Buscará atrair a atenção e o interesse dos alunos pelo que será ensinado. Na introdução devem ficar bem claros os alvos da aula em termos de lições a serem ensinadas e informações a serem transmitidas. É este o momento, logo no início da aula, em que professor e alunos devem se colocar diante de Deus para, em oração, pedir a bênção da sabedoria e do discernimento espiritual para o estudo da sua Palavra.

É preciso se valer de muita criatividade na introdução da aula. Fatos contemporâneos, notícias de jornais, ilustrações e experiências constituem excelente material para a introdução de uma boa aula na Escola Dominical. Costumamos comparar a introdução de uma aula com o lançamento de um foguete.

Dizem os entendidos que nos primeiros minutos após o lançamento de um foguete, os cientistas já são capazes de prever o sucesso ou fracasso de uma expedição espacial. As coisas são mais ou menos assim com a aula da Escola Dominical, se o professor não conseguir captar a atenção dos seus alunos e deixar claro para eles o que vai ser ensinado na introdução da aula, não conseguirá fazê-lo mais.

Interpretação (30%)

A preocupação do professor é com a transmissão de informações e dados que auxiliarão o aluno na interpretação do texto bíblico em estudo. Neste momento, a palavra é quase totalmente de uso do professor; eventualmente, um aluno pode oferecer contribuição, porém, o pressuposto é de que o professor está preparado para oferecer aos seus alunos as informações de que se valerão para a clara compreensão do texto bíblico.

Mais adiante ofereceremos maiores informações sobre como interpretar a Bíblia, importando agora tão-somente conscientizar o leitor para o fato de que, em sala de aula, precisará reservar pelo menos 30% do tempo disponível para o estudo e fiel interpretação da Palavra de Deus.

Vivemos numa época quando muitas pessoas têm se lançado na tarefa de ensinar a Bíblia, e isso no rádio, na televisão etc, sem dar a merecida atenção à interpretação da Palavra. Aí, abre-se espaço para verdadeiras aventuras hermenêuticas onde absurdos são apresentados como verdades bíblicas.

Os alunos da Escola Dominical precisarão ser alcançados com argumentação bíblica consistente para que as verdades da Palavra de Deus sejam enraizadas em suas vidas, o que só será possível mediante interpretação sadia e profunda das Escrituras.

Aplicação (40%)

Uma vez bem interpretado, o texto bíblico oferecerá princípios e ensinamentos que deverão ser aplicados à vida dos alunos. Caso contrário, o objetivo principal da Escola Dominical ficará por ser atingido e não haverá aprendizado real das Escrituras, logo não acontecerão mudanças na vida dos alunos.
Se um aluno, após uma aula na classe, não se sente estimulado a mudar aspectos de sua vida para que eles se harmonizem com as Escrituras, certamente a aula não logrou êxito.
O resultado de uma boa interpretação é o surgimento de princípios, lições e ensinamentos que, uma vez levados em consideração, provocarão mudanças na vida daqueles que a eles se submetem. Tais princípios precisam ser clarificados e expostos para que os alunos deles se apropriem. Uma aula sem aplicação é como se uma pessoa fosse ao médico, recebesse a receita, mas não fosse instruída sobre como usar os medicamentos. É tarefa precípua do professor orientar seus alunos na aplicação das verdades bíblicas.
Aplicando as verdades bíblicas à vida dos seus alunos, o professor estará construindo uma ponte entre o mundo da Bíblia e o mundo de hoje. Ora, é preciso levar em conta que estamos distantes, geográfica, cultural e cronologicamente do mundo da Bíblia, razão pela qual precisamos interpretar corretamente seu texto e aplicar coerentemente as verdades dele extraídas à vida dos alunos. Sem aplicação a aula torna-se somente informativa, sem relevância prática, sem vida. Ao término de uma aula na Escola Dominical, o aluno deverá ter uma noção clara sobre como colocar em prática em sua vida as verdades aprendidas.
No momento da aplicação é muito importante a participação dos alunos, dando opiniões, compartilhando experiências e oferecendo subsídios para a cor-reta aplicação das verdades aprendidas à vida dos colegas de classe. O professor deverá tomar cuidado e ser muito ágil no comando dos debates para evitar que apenas um ou dois alunos monopolizem o uso da palavra. O ideal é que o professor oriente a participação dos alunos, possibilitando inclusive que aqueles mais tímidos e reservados expressem suas idéias e opiniões.
O resultado da participação dos alunos constitui farto enriquecimento da aula, especialmente no seu aspecto prático. Com cautela, o professor não pode prescindir da participação dos alunos na construção da aula. Uma opinião ou uma experiência pode ensejar uma situação de ensino, propiciando muita edificação e aprendizado.

Conclusão (15%)

Ao terminar a aula, o professor precisa recapitular com os alunos as principais informações transmitidas e repassar os ensinamentos aprendidos. A lição principal do texto precisará ser repassada, enfatizada e ilustrada.
Não pode haver uso desproporcional do tempo nas partes anteriores da aula, sob pena de se prejudicar a conclusão. A conclusão é o momento de fechar as idéias, ratificar princípios, confirmar doutrinas e homologar atitudes e comportamentos. Uma boa conclusão não pode ser feita apressada ou superficialmente, sob o risco de se comprometer toda a aula. Uma conclusão bem feita há de motivar o aluno a prosseguir no estudo das Escrituras. Ao concluir a aula, o professor precisa dar um tempo para que os alunos orem a Deus.
E um momento de comunhão e edificação espiritual, quando os alunos conversam com Deus acerca de suas vidas nos aspectos tocados pelo estudo da sua Palavra.

Abertura
5%
Conclusão
15%
Interpretação
30%
Aplicação
40%
Introdução
10%

Diagrama da distribuição do tempo de uma aula na Escola Dominical.


terça-feira, 28 de abril de 2015

JESUS ESCOLHE SEUS DISCÍPULOS - LIÇÃO 5


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                                                        Pastor José Gonçalves

Religiões em Movimento

Em 2013 a editora Vozes lançou o livro Religiões em Movimento — o censo de 2010. O livro, que conta com a participação de vários especialistas, se propõe a fazer uma leitura analítica dos dados do último Censo do IBGE de 2010. A obra contou com as participações do teólogo e pesquisador do CNPq Faustino Teixeira e da antropóloga Renata Menezes como organizadores. Até o presente momento, considero essa obra literária a melhor interpretação dos dados do Censo de 2010.
O livro, portanto, analisa a presença do fenômeno religioso em solo brasileiro e como o mesmo tem se comportado ao longo dos anos. Dentro desse contexto os pesquisadores observaram que os números revelaram o declínio da religião tradicional; a consolidação das novas tendências no universo da fé; o decréscimo do catolicismo e dos “evangélicos de missão”, esta última expressão usada para se referir às igrejas protestantes tradicionais; o fenômeno do pentecostalismo com as suas diferentes matizes incluindo as igrejas pertencentes ao pentecostalismo clássico e ao neopentecostalismo. Dentro da vertente pentecostal clássica ou histórica observou-se o crescimento isolado das Assembleias de Deus e o declínio das igrejas neopentecostais, tais como Universal do Reino de Deus e Evangelho Quadrangular.

O “Boom” Evangélico!

Faustino Teixeira põe em destaque o que ele denomina de crescimento evidente dos evangélicos. Nas últimas décadas esse crescimento teve um salto de 6.6% em 1980 para 22,2% da população geral em 2010.
Numa população brasileira de 190.755.799 milhões de habitantes, os evangélicos somam 42.275.440. Faustino observa ainda que esse crescimento não ocorreu entre os evangélicos de missão (igrejas tradicionais), que permanecem estacionados no percentual de 4%, mas sobretudo aos pentecostais que, segundo os números, correspondem a 13.3 % da população brasileira, o que perfaz um total de 25.370.484 milhões de fiéis. Isso significa que nos últimos dez anos cerca de 4.408 novos crentes foram acrescidos por dia ao arraial evangélico; entre os pentecostais o número de adesões diárias sobe para 2.124, sendo que as Assembleias de Deus receberam diariamente em suas fileiras 1.067 novas pessoas.1
Os números referentes ao crescimento dos evangélicos são de fato impressionantes! Por outro lado, os analistas se depararam com um fenômeno até então não detectado nos dados do IBGE — a presença de uma nova categoria de evangélicos, rotulada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de “Evangélica não determinada”. E exatamente a existência dessa nova categoria que mais tem intrigado os pesquisadores. Quem são? O que os números dizem sobre ela?
Faustino Teixeira comenta:
“A dificuldade de precisão analítica na apreensão correta dos dados sobre os evangélicos deve-se, em parte, ao significativo número de fiéis evangélicos classificados na categoria de “evangélicos não determinados”. Nada menos do que 9.2 milhões de pessoas, perfazendo 21,8 % de todo o contingente evangélico, num patamar que envolve 5% de toda a população brasileira. Alguns analistas os identificam como “evangélicos genéricos” ou “evangélicos sem igreja”, indicando a afirmação de uma diversidade interna no campo evangélico, seja mediante caminhos diversificados de assunção da pertença evangélica, seja o exercício de crença fora das instituições, ou na múltipla pertença evangélica”.2

Evangélicos não Determinados

O antropólogo e professor de pós-graduação da UFJF Marcelo Ayres Camurça também fez uma análise sobre a nova configuração religiosa no Brasil a partir dos dados do Censo de 2010. No capítulo intitulado de: O Brasil religioso que emerge do Censo de 2010: consolidações, tendência e perplexidades, comenta sobre esse aparecimento do que ele considera como um fenômeno dentro do universo evangélico, o expressivo contingente de evangélicos não determinados. Como já foi sublinhado essa nova categoria, em termos percentuais, já é superior aos evangélicos tradicionais e somam um número de 9.2 milhões de pessoas.
Pois bem, Camurça analisa as implicações que esses números têm dentro do arraial evangélico. Ele diz:
“Um fenômeno novo que veio a ser detectado nesse Censo foi a declaração recorrente de um segmento da população que passa a se identificar apenas como ‘evangélica’, saindo de 1,7 milhão, que correspondia a 1% dos evangélicos no Censo de 2000, para 9.2 milhões, ou seja, 4,8% no Censo atual, fenômeno que a classificação do IBGE denomina ‘evangélico não determinado1. Do total do grupo evangélico, 22,2%, este segmento já ultrapassa os “evangélicos de missão” (na classificação do IBGE identificando as igrejas protestantes históricas) com 4,8% em relação aos 4,0% dos últimos, superado apenas pelos pentecostais com 13,3%. Uma linha de interpretação associou este tipo a uma “parcela não praticante” no grupo evangélico, uma característica de religião estabelecida e de maioria, que, no tipo de dinâmica descrita por Paul Freston, aparece “quando uma religião cresce e fica parecida com a sociedade na qual está inserida”, o que nos evoca a categoria ‘igreja’ em oposição a “seita” na tipologia de Ernst Troelstch. Na análise do sociólogo Ricardo Mariano, especialista numa sociologia do protestantismo e do pentecostalismo, o crescimento deste tipo no meio evangélico representa um indicador de ‘privatização religiosa’, ou seja, o desenvolvimento de uma crença evangélica ‘por fora das instituições’, com a consequente diminuição do ‘compromisso religioso’ e a assunção da “autonomia” e ‘individualismo’ (Folha de São Paulo, 30/06/2012). Aqui, uma contaminação no meio evangélico da tendência (pós-) moderna da desfiliação religiosa e religião do self. Embora Mariano tenha falado em diminuição do compromisso religioso, penso isto significar mais o fim da pertença exclusiva do que a tendência a uma vinculação apenas nominal a uma religião que vai se tornando majoritária. Isto porque este evangélico genérico desenvolve uma atividade intensa e uma mobilização em torno de um estoque variado de opções que o universo evangélico — agora transmutado em ‘mercado de bens simbólicos’ evangélicos de estilo moderno — oferece. Este novo evangélico geral se coloca na contramão da cultura histórica do denominacionalismo que caracterizou o protestantismo histórico.”3

Desinstitucionalização

Por outro lado, o antropólogo e professor da UFMG, Pierri Sanchis vê o fenômeno dos evangélicos genéricos, não determinados ou desigrejados como sendo uma consequência da desinstitucionalização crescente. Ele destaca que as estruturas sólidas que fundavam, enquadravam, regulavam o universo das experiências religiosas, conferindo-lhes distinção, identidade e conteúdo, não o fazem mais com o mesmo rigor, e até quando se reafirmam com renovado vigor, não o fazem com a mesma abrangência. Nesse aspecto ele observa que as instituições religiosas sofrerão cada vez mais com falta de identidade de seus fiéis para com elas. Mesmo que a identidade religiosa permaneça, todavia os seus significados e conteúdos se amoldarão à nova realidade.4
Em 2012 escrevi em meu livro Prosperidade à Luz da Bíblia sobre a existência desses crentes migratórios. Destaquei que as bênçãos de Deus, quer seja de prosperidade ou saúde, acontecem dentro da esfera da igreja local. Os Institutos de Pesquisas têm detectado um fenômeno entre os evangélicos brasileiros — a existência de uma geração de crentes migratórios. Esses novos evangélicos não firmam raiz com igreja alguma, mas vivem sempre a se lançar à caça de uma nova igreja que lhe garanta uma bênção sem muito esforço. Esse entendimento é fundamentado numa falsa compreensão do que seja servir a Deus. Nesses casos, o crente acredita que a sua participação em uma das dezenas de corrente de prosperidade ou o cumprimento de certos rituais exigidos lhe garantirão o favor de Deus sobre a sua vida. O relacionamento com Deus e o vínculo com uma comunidade local é totalmente esquecido. Para essas pessoas, muitas vezes, o problema está com as igrejas que mal frequentam e não com eles mesmos.5

Office-Boy

Em 2004, a revista Superinteressante trouxe uma ampla matéria sobre o crescimento dos evangélicos no Brasil. A revista destacava, naquela época, que um em cada seis brasileiros pertencia a alguma denominação evangélica. Todavia a matéria chamava a atenção para o perfil desses novos crentes. “Para resumir, o neopentecostalismo quer dizer que Monique Evans, Gretchen e Marcelinho Carioca podem agora se considerar ‘crentes’. Para isso, algumas adaptações aconteceram: saem os homens de terno e as mulheres de pelos nas pernas, entram pessoas que se vestem com roupas comuns e não se animam a seguir normas rígidas de conduta. A primeira inovação foi riscar do mapa o ascetismo, o sectarismo e a crença de que a melhor parte da vida está reservada para o Paraiso. ‘A preocupação dos neopentecostais é com esta vida. O que interessa é o aqui e o agora’, afirma o sociólogo Ricardo Mariano, autor de Neopentecostais - Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil”. 6

Sem Sal

Citando o escritor Paulo Romeiro, destacado cientista da religião, a revista chamava a atenção para as consequências que essa nova teologia gerava nos conversos. “A teologia da prosperidade faz o fiel encarar Deus como um office-boy. O crente dá ordens e determina o que pretende. Não há qualquer reconhecimento das fragilidades humanas e de suas necessidades em relação a um Deus superior.” A revista destacou as igrejas Renascer em Cristo, Sara Nossa Terra e Internacional de Deus como as principais representantes desse segmento. Essa “nova teologia” acabou por diluir a identidade historicamente construída pelos evangélicos no mundo. A reportagem entrevistou o pastor Joaquim Andrade, pesquisador da AGIR (Agência de Informações da Religião). De acordo com Andrade, há uma verdadeira perda de identidade no movimento evangélico mundial. O pentecostalismo flexibilizou suas exigências comportamentais, e até os protestantes históricos passaram aceitar a participação mais ativa do fiel no culto e algumas manifestações sobrenaturais.
Concluindo a matéria, quase que em um tom profético, a Superinteressante destacou:
“Um indício de que a conversão do mundo evangélico significa um arrefecimento do fervor religioso é o fato de que as neopentecostais exigem poucas mudanças nos fiéis. O resultado é que, quanto mais crescem, menos os evangélicos mudam a cara do País — bem ao contrário da revolução que ocorreu na Europa com as ideias de Lutero e Calvino.
Prova disso é a programação de determinada rede de televisão, comprada por uma igreja usando o dinheiro dos dízimos, que pouco difere das concorrentes”.7 (Grifos meus).
E lastimável, mas é a verdade!

A Graça Barata!

Não há dúvidas de que há um “boom” no crescimento evangélico! Mas esse não é um crescimento sadio, mas um crescimento com inchaços! Na verdade os números revelam mais um inchamento do que um crescimento de fato. Como observou a matéria da Superinteressante, quanto mais crescem, menos os evangélicos mudam a cara do país. O que há de errado, então, com essa explosão da população evangélica?
Escrevi em outro texto que o verdadeiro evangelho tem custo! A salvação é de graça, mas o discipulado custa caro! Dietrich Bonhoeffer, mártir alemão durante a Segunda Guerra Mundial, escreveu que: “a graça barata é a inimiga mortal de nossa Igreja. A nossa luta trava-se hoje em torno da graça preciosa. Graça barata é graça como refugo, perdão malbaratado, consolo malbaratado, sacramento malbaratado; é graça como inesgotável tesouro da Igreja, distribuído diariamente com mãos levianas, sem pensar e sem limites; a graça sem preço, sem custo (...) graça barata significa justificação do pecado, e não do pecador; é a pregação do perdão sem o arrependimento.”8
A razão, portanto, da existência de tantos desigrejados, cristãos indeterminados ou genéricos, está na ausência de um discipulado bíblico que permitisse esses crentes terem um crescimento natural e sadio. São cristãos que não estabeleceram vínculo nenhum com a igreja local e pouco ou quase nada sabem sobre o senhorio de Jesus.
Um programa de discipulado bíblico, nos moldes do recrutamento que Jesus fez com seus discípulos, precisa levar em conta alguns princípios. No Evangelho de Lucas vemos como isso se deu. Primeiramente observamos que o Mestre serviu de modelo aos seus liderados, além do fato de os moldar de acordo com seus ensinos! Dentro desse processo, observamos, em segundo lugar, que o chamado ao discipulado não acontece de qualquer forma, mas há métodos que devem ser seguidos e custos que devem ser avaliados. Em terceiro lugar, uma atenção especial deve ser dada ao treinamento desses discípulos, o que exige uma mudança de cosmovisão e também de valores. Por último o envio em uma missão especifica, que consiste em pregar os valores do Reino de Deus e curar uma sociedade que se encontra doente. Um discípulo, é portanto, alguém que é capaz de reproduzir aquilo que aprendeu.

O Discipulado de Jesus

Em sua exaustiva obra: Um Judeu Marginal - repensando o Jesus histórico, o escritor John P. Meier põe em relevo o discipulado de Jesus.
“O Jesus adulto surge pela primeira vez quando se junta a determinado grupo escatológico, caracterizado pelo batismo e arrependimento, chefiado por um estranho indivíduo chamado João Batista. Arrebatando alguns indivíduos desse grupo, Jesus logo seguiu seu próprio caminho com uma nova mensagem do iminente, e, no entanto, presente, reino de Deus, mensagem essa dirigida a todo Israel. Indo de cidade em cidade em um ministério itinerante, Jesus atraiu círculos mais próximos e mais afastados de seguidores entre seus correligionários judeus... Participou de debates religiosos com outros judeus devotos e tomou a liberdade de ensinar a seus correligionários como a Lei mosaica devia ser seguida corretamente. Em seu próprio círculo ensinava a seus discípulos formas especiais de orações, observâncias e crenças que os caracterizavam como um grupo distinto dentro do judaísmo da Palestina no século I.”9
Lucas registra:
“Ora, ia com ele uma grande multidão; e, voltando-se, disse-lhe: Se alguém vier a mim e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E qualquer que não levar a sua cruz e não vier após mim não pode ser meu discípulo. Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele, dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde acabar. Ou qual é o rei que, indo à guerra a pelejar contra outro rei, não se assenta primeiro a tomar conselho sobre se com dez mil pode sair ao encontro do que vem contra ele com vinte mil? De outra maneira, estando o outro ainda longe, manda embaixadores e pede condições de paz. Assim, pois, qualquer de vós que não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo. Bom é o sal, mas, se ele degenerar, com que se adubará? Nem presta para a terra, nem para o monturo; lançam-no fora. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça” (Lc 14.25-35).

O Custo do Discipulado

No texto: A Educação no Antigo Israel e no Tempo de Jesus encontramos uma excelente exposição sobre o processo do chamado de Jesus. O texto põe em evidência alguns desses princípios. É dada atenção para o fato de que o chamado de Jesus não é algo que vem pronto e acabado, mas se constrói através de repetidas idas e vindas, de avanços e recuos. Tem início na beira do mar da Galileia (Mc 1.16), e termina com a ascensão (Mt 28.18-20). Depois da ressurreição começa de novo à beira do mesmo lago (Jo 21.2-17). É um recomeçar sempre!10

O Recrutamento

A forma como Jesus chama as pessoas é bastante simples e variada. Muitas vezes Jesus toma iniciativa no chamado. Ele vê as pessoas e as chama (Mc 1.16-20). Mas em outros casos este chamado se dá através da rede de entrelaçamento familiar quando um membro da família conduz algum parente ou amigo até Jesus (Jo 1.40-42; 45-46). João, o batista, também tem participação nesse chamado quando orienta seus discípulos a seguir o Mestre (Jo 1.35-39). Em outros casos as pessoas decidem espontaneamente seguir Jesus (Lc 9.57,58; 61,62).11

A Natureza do Chamado

Uma outra coisa posta em destaque diz respeito à natureza do chamado de Jesus. Esse chamado é de graça e não tem nenhum custo a mais. Todavia, o grau de compromisso dessa decisão é muito alto. Jesus não engana ninguém nem camufla as implicações envolvidas no seu chamado. E um chamado que deve ser aceito de forma consciente por aquele que o abraça (Mc 1.15).
Nesse aspecto o chamado é começar tudo de novo (Jo 3.3-8). O compromisso com o Reino e o chamado deve estar acima de qualquer vínculo familiar (Lc 9.60). Quem o acolheu não pode mais voltar atrás (Lc 9.62). E uma pérola preciosa e quem a achou deve se desprender de tudo para tê-la. Enfim quem o aceita deve se desprender de tudo para se dedicar a Ele (Mt 13.4446).

O Perfil dos Chamados

E interessante também o perfil dos chamados por Jesus. Figueira e Junqueira põe em evidência esses perfis. Eram humanos, limitados e imperfeitos.
Os exemplos:
Pedro — era generoso e entusiasta (Mc 14.29,31), mas, na hora do perigo e da decisão, o seu coração encolhia e ele voltava atrás (Mt 14.30; Mc 14.66-72).
Tiago e João - estavam dispostos a sofrer por Jesus (Mc 10.39), mas queriam ter mais poder que os outros (Mc 10.35-41), e eram temperamentais (Lc 9.54). Jesus deu-lhes o apelido de “filhos do trovão” (Mc 3.17).
Filipe — tinha muito jeito para colocar os outros em contato com Jesus (Jo 1.45,46), mas não era prático em resolver os problemas (Jo 6.5-7; 12.20-22). Jesus certa vez o censurou (Jo 14.8,9).
Natanael — era bairrista 0o 1.46), mas diante da evidência reconhece que Jesus é o Messias (Jo 1.49).
André - era mais prático. Foi ele que encontrou o menino com cinco pães e dois peixes (Jo 6.8,9).
Tomé - era generoso, disposto a morrer com Jesus (Jo 11.16). Mas também era cabeçudo e teimoso, capaz de sustentar a sua opinião, uma semana inteira, contra o testemunho de todos os outros (Jo 20.24,25).
Mateus — era publicano e como tal era excluído da religião judaica.
Simão - era Cananeu ou Zelote (Mc 3.18). Fazia parte de um partido dos zelotes que se opunha ao governo romano.
Judas - guardava o dinheiro do grupo (Jo 12.6; 13.29).
Joana — era esposa de Cusa, procurador de Herodes, que governava a Galileia. Junto com Susana e outras mulheres, ela seguia a Jesus e o servia com seus bens (Lc 8.2-3).
Maria Madalena — era nascida na cidade de Magdala. Jesus libertou-a de sete demônios (Lc 8.2).
Marta e Maria - eram irmãs, que junto com Lázaro, o irmão delas, viviam em Betânia, perto de Jerusalém (Jo 11.1).
Nicodemos - Era membro do Sinédrio, o Supremo Tribunal da época.12

As Dimensões do Chamado

Ainda segundo o pensamento desses autores o discipulado de Jesus possui três dimensões:
• Tomar o Mestre como Exemplo
Jesus se torna o referencial na vida do discípulo (Jo 13.13-15).
• Ter participação na cruz
Seguir Jesus estava muito longe de algo meramente teórico. Seguir Jesus era sofrer com Ele, era participar de suas provações (Lc 22.28) e perseguições (Jo 15.20; Mt 10.24,25). Era se sujeitar a viver sob o peso da cruz e até mesmo morrer com Jesus (Mc 8.34,35; Jo 11.16).
• Viver a vida de Jesus
Essa nova dimensão vem logo após a ressurreição de Jesus e a vinda do Espírito Santo. Seus discípulos estão convictos de que Jesus vive neles através do Espírito Santo: “Vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim” (G1 2.20). Como seus seguidores, cheios do Espírito, e com a presença de Jesus no meio deles, agora continuam a obra que Jesus começou entre eles. Entregam-se totalmente à palavra de Deus e à oração.13

Marta e Maria

Esse discipulado de Jesus fica em destaque nas vidas de Marta e Maria. Há algumas lições que podemos extrair desse relato.
“E aconteceu que, indo eles de caminho, entrou numa aldeia; e certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa. E tinha esta uma irmã, chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Marta, porém, andava distraída em muitos serviços e, aproximando-se, disse: Senhor, não te importas que minha irmã me deixe servir só? Dize-lhe, pois, que me ajude. E, respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada” (Lc 10.38-42).
A forma como o Senhor discípula Marta e Maria, conforme mostra essa narrativa, é de fato muito interessante. Observamos que:
1. É possível hospedar Jesus e ainda assim não possuir nenhum relacionamento com Ele — “Recebeu (hospedou) em sua casa” (v. 38). Não basta ter Jesus como hóspede, é necessário que Ele habite na casa. Um dos problemas graves do discipulado contemporâneo é que ele não consegue firmar vínculo com Jesus. Jesus não é o dono nem tampouco o Senhor da casa, mas um mero hóspede. A palavra grega upodechomaí, traduzida como “recebeu” ou “hospedou”, possui o sentido de “receber como um convidado”. Não é um residente. Uma vida transformada necessita ter Jesus como residente nela e não apenas como um convidado.
2. É possível possuir algum parentesco com alguém piedoso e mesmo assim não ter uma vida piedosa — “E tinha esta uma irmã, chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra” (v. 39).
Marta era irmã de Maria. Maria era uma crente piedosa que queria sempre aprender aos pés do Mestre. Por outro lado, Marta não era tão piedosa quanto a irmã. Não tenho dúvidas de que o fracasso do discipulado reside no fato de muitos cristãos possuírem apenas uma fé nominal. Frequentam uma igreja, pertencem a alguma comunidade evangélica, mas não conseguem levar uma vida devocional genuinamente cristã. Vivem sempre à margem da fé. Aproximam-se mais do mundo do que do evangelho.
3. É possível ter orelhas para escutar e mesmo assim não ouvir o que o Senhor está dizendo — “Maria... ouvia a Palavra” (v. 39). Maria ficava ao lado do Senhor para melhor ouvir os seus ensinamentos, mas Marta não tinha tempo para isso. A verdadeira adoração não ignora a obrigação nem tampouco esquece a devoção. O trabalhador não deve esquecer que também é um adorador.
4. É possível estar tão ocupado que até mesmo Deus passa a ser um problema — “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe servir só?” (v. 40).
Se não podemos afirmar que Marta quis culpar ao Senhor pela falta de cooperação de Maria, no mínimo ela achava que Maria não estava usando corretamente o seu tempo naquela ocasião. Jesus ali aparece como um problema para Marta. Marta acha que é Ele quem interrompe os afazeres domésticos de Maria, sua irmã. Quando nos envolvemos demais com as coisas dessa vida, até mesmo Deus ou a igreja passam a ser um peso para nós.
5. E possível estar à sombra do Evangelho e mesmo assim possuir valores invertidos — “respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada” (v. 41,42).
O problema com Marta foi que ela inverteu as coisas. Pôs suas prioridades em primeiro lugar e não encontrou espaço para as coisas de Deus. Os valores ficaram invertidos. É o uso da lógica inversa àquela do reino de Deus. “Mas buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33). Quando Deus se torna o primeiro, jamais vamos ser os últimos.

Jesus, o Discipulado e o Espírito Santo

Por último, desejo pôr em destaque o papel do Espírito Santo no discipulado. O terceiro evangelho, como faz em outras partes, aqui também põe os carismas do Espírito a serviço do discipulado. “Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca de tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar, até ao dia em que foi recebido em cima, depois de ter dado mandamentos, pelo Espírito Santo, aos apóstolos que escolhera; aos quais também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias e falando do que respeita ao Reino de Deus. E, estando com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, que (disse ele) de mim ouvistes. Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias” (At 1.1-5).
Lucas destaca que Jesus deu mandamentos aos apóstolos através do Espírito Santo (At 1.2). O Espírito Santo foi um instrumento eficaz no amoldamento dos discípulos de Jesus. Sem a participação efetiva do Espírito do Senhor nenhum programa de discipulado ou recrutamento cristão será eficaz.
Consigo ainda me lembrar com precisão de uma experiência que aconteceu no primeiro trabalho congregacional que assumi como pastor de tempo integral. Quando estava prestes a assumir aquele trabalho tive uma visão de Deus. Vi uma horta com vários tomates. Havia tomates verdes, maduros e ainda outros cujo formato chamou-me a atenção. Eram tomates compridos! Suas formas se assemelhavam a de uma banana! Fiquei perplexo! O que significava aquilo?
Já empossado como obreiro de tempo integral naquela congregação, comecei a ministrar a Palavra de Deus. Comuniquei à igreja que iria pregar uma série de estudos sobre avivamento, mas tive que desmarcar os estudos porque senti como se o Espírito Santo me dissesse que ainda não era tempo para esse tipo de trabalho. Eu deveria ministrar antes sobre os frutos do Espírito e somente depois pregar sobre os dons do Espírito! Não demorou muito para eu saber o porquê disso. Logo percebi que havia ali muitos crentes vivendo conflituosamente. Eram cristãos deformados à semelhança dos tomates compridos! Naquelas condições não haveria nenhum avivamento. Segui a orientação do Senhor e vi os resultados logo aparecerem. Somos gratos a Deus pela presença do seu Espírito em nosso meio! Aleluia.

NOTAS

1 TEIXEIRA, Faustino. Religiões Em Movimento - o Censo de 2010.
2 TEIXEIRA, Faustino. Op.cit.
3 CAMURÇA, Marcelo Ayres. In: Religiões Em Movimento - o Censo de 2010. Petrópolis: Editora Vozes, 2013, p.75.
4 SANCHIS, Pierre. Religiões Em Movimento - O Censo de 2010.
5 GONÇALVES, José. A Prosperidade à Luz da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.
6 GWERCMAN, Sérgio. In: Superinteressante - as 25 reportagens mais surpreendentes, polêmicas e curiosas dos 25 anos da Revisa. São Paulo: Editora Abril, 2013.
7 Superinteressante - as 25 reportagens mais surpreendentes, polêmicas e curiosas dos 25 anos da Revista. São Paulo: Editora Abril, p 112.
8 BONHOFFER, Dietrich. Discipulado. Editora Sinodal, 2004.
9 MEIER, John P. Um Judeu Marginal - repensando o Jesus histórico, volume três, livro 1 - companheiros. Rio de Janeiro: Editora Imago, 2003.
10 FIGUEIRA, Eulálio
- Educar para a caridade e a solidariedade. São Paulo Ed. Paulinas, 2012.
11 Idem.
12 FIGUEIRA, Eulálio &_ JUNQUEIRA, Sérgio. Teologia e Educa- ção. Op. Cit.
13 FIGFIGUEIRA, Eulálio e JUNQUEIRA, Sérgio. Teologia e Educação. Op.cit