sábado, 28 de março de 2015

O que é o DIP?





Domingo da Igreja Perseguida: cristãos brasileiros servindo cristãos perseguidos
Conscientizar a Igreja brasileira da perseguição aos cristãos é uma maneira de servir nossos irmãos e também de edificar os brasileiros em seu relacionamento pessoal com Deus
 
Uma celebração única, com milhares de pessoas estendendo-se do norte ao sul do Brasil em torno de um único propósito: servir cristãos perseguidos. Esse é objetivo do Domingo da Igreja Perseguida (DIP), realizado no Brasil desde 1988. 

Em pleno século 21, cerca de 100 milhões de cristãos enfrentam hostilidade e perseguição pelo simples fato de seguir a Cristo. Essa intolerância vem de várias fontes: governo, sociedade e até mesmo da família. Por causa de sua fé, esses irmãos enfrentam desde desemprego, exclusão da sociedade, expulsão do círculo familiar a interrogatórios, aprisionamentos, torturas e até mesmo a morte.

O evento, idealizado pelo Irmão André (fundador da Portas Abertas) em 1987, relembra a “fundação” da Igreja Perseguida: Atos 4 marca o início da perseguição aos cristãos logo após a descida do Espírito Santo (domingo de Pentecostes), com a prisão de Pedro e João.

Em 2014, em sua 26ª edição, 5.667 igrejas em todo o Brasil dedicaram o domingo 25 de maio para apresentar a causa da Igreja Perseguida e apoiá-la por meio de orações e ofertas. Além disso, o DIP também foi realizado nas igrejas em mais de onze países: Bolívia, Chile, Estados Unidos, Guiné Bissau, Uganda, Cabo Verde, Peru, Portugal, França, Alemanha e Japão.

Envolva-se! No domingo, 31 de maio de 2015, aproveite a liberdade que temos como Igreja brasileira e utilize-a no serviço aos nossos irmãos perseguidos. 

Nós e os cristãos perseguidos contamos com você!


segunda-feira, 23 de março de 2015

A Igreja e a Lei Deus - Lição 13

O enfoque do presente capítulo é a compreensão da lei de Moisés e a sua relação com o evangelho. Trata- -se de um tema de grande complexidade. Disse Lutero: "Quem sabe distinguir corretamente o evangelho da lei deve agradecer a Deus e pode estar certo de que é um teólogo". Os três principais reformadores do século 16 debateram o assunto. Depois dessa série de estudos sobre o Decálogo e cada um dos seus preceitos, resta responder a duas questões: se a moral cristã está fundamentada nas dez palavras ou nos Dez Mandamentos (como aparece em nossas versões da Bíblia) e qual a sua relevância para a Igreja de Cristo na atualidade.


Já havia animosidades sobre o papel da lei de Moisés nos dias apostólicos. Esses debates ajudam a elucidar a questão, mas nem por isso a solucionaram definitivamente. Isso vem desde os galacionistas que se opunham ao apóstolo Paulo e também, em parte, desde os ebionitas, que defendiam a guarda da lei de Moisés. Mas os discípulos desses legalistas ainda estão por aí.

A LEI DE DEUS

A lei de Deus e os Dez Mandamentos não são a mesma coisa. Os Dez Mandamentos encabeçam os demais preceitos entregues por Deus a Moisés no monte Sinai desde Êxodo 19.16-19 até Levítico 26.46; 27.34. Esses preceitos são identificados com frequência como estatutos, juízos, leis e mandamentos. Muitos deles são repetidos nos livros de Números e Deuteronômio. Todo esse sistema legal integra o Pentateuco, que aparece na Bíblia como lei, livro da lei, lei de Moisés, lei de Deus, lei do Senhor.
É oportuno aqui esclarecer o que a Bíblia quer dizer quando usa as palavras "lei de Deus". O termo aparece sete vezes nas Escrituras, quatro no Antigo Testamento e três no Novo, e em nenhum lugar diz respeito ao Decálogo. As quatro primeiras ocorrências se referem a toda a lei de Moisés, ao Pentateuco, como livro: "Josué escreveu estas palavras no livro da Lei de Deus" Os 24.26); "E leram o livro, na Lei de Deus... ele lia o livro da Lei de Deus" (Ne 8.8,18); "e convieram num anátema e num juramento, de que andariam na Lei de Deus, que foi dada pelo ministério de Moisés, servo de Deus; e de que guardariam e cumpririam todos os mandamentos do SENHOR, nosso Senhor, e os seus juízos e os seus estatutos" (Ne 10.29). Assim, as expressões "lei de Deus", "lei do Senhor" e "lei de Moisés" dizem respeito à mesma coisa (Ne 8.1, 8, 18; Lc 2.22, 23). Trata-se do Pentateuco no seu todo, e não apenas do Decálogo, do livro, e não das tábuas de pedra.
As outras três aparecem somente em Romanos, e nenhuma delas diz respeito ao Decálogo: "Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus... Dou graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. Assim que eu mesmo, com o entendimento, sirvo à lei de Deus, mas, com a carne, à lei do pecado" (Rm 7.22, 25). O termo "lei" aparece cerca de 70 vezes nesta epístola com amplo significado, cuja explanação não cabe aqui. A "lei de Deus" neste contexto contrasta a "lei do pecado", mostrando tratar-se de um princípio. A outra ocorrência é no capítulo seguinte: "Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser" (Rm 8.7). O homem carnal não tem lei nem se submete à vontade de Deus que o apóstolo chama de "lei de Deus".

OS TRÊS TIPOS DE LEI

É comum ouvir falar de lei moral, lei cerimonial e lei civil. Os preceitos morais estão resumidos nos Dez Mandamentos. São os que tratam dos princípios básicos morais (alguns chegam a considerar erroneamente o sábado como preceito moral, ver Capítulo 5). É única porção do Pentateuco escrita pelo dedo de Deus em duas tábuas de pedra. A própria nação de Israel viu e ouviu Deus entregando essa parte da lei a Moisés. Essa é outra característica distintiva do Decálogo. A lei cerimonial é a parte que trata das festividades religiosas, do sistema de sacrifício e da adoração no santuário, dos alimentos limpos e imundos e das instruções sobre a pureza ritual, entre outros. A lei civil diz respeito à responsabilidade do israelita como cidadão; são regulamentos jurídicos e instruções que regiam a nação de Israel. Convém salientar o que já foi dito no Capítulo 1: "Embora essa distinção tripartite seja antiga, seu uso como fundamento para explicar a relação entre os testamentos não é demonstravelmente derivada do Novo Testamento e provavelmente não é anterior a Tomás de Aquino" (CARSON, 2011, p. 179). Os preceitos cerimoniais e civis derivam dos preceitos morais. Esses três tipos de lei estão presentes no Pentateuco, entretanto, tudo é a lei de Moisés.

Há uma interpretação entre os cristãos de que a lei moral é eterna, portanto, para a atualidade. A lei cerimonial se cumpriu na vida e na obra de Jesus Cristo. A lei civil cumpriu sua função até que Israel deixou de ser um estado teocrático, e a Igreja não é um estado. Tudo isso são interpretações. É verdade que a lei cerimonial se cumpriu em Jesus, pois todo o sistema e ritos do tabernáculo apontavam para o Messias. Israel perdeu a condição de estado teocrático (Mt 21.43), e os privilégios de Israel foram transferidos para a Igreja (Êx 19.6, 7; 1 Pe2.9, 10). O Senhor Jesus cumpriu todos os preceitos morais durante sua vida terrena. Em nenhum lugar o Novo Testamento diz que a lei moral se resume a amar a Deus e ao próximo, mas abrange toda a lei: "Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas" (Mt 22.40). O apóstolo Paulo afirma: "Porque quem ama aos outros cumpriu a lei" (Rm 13.8). Em seguida, ele cita cinco mandamentos do Decálogo, mas não na sequência canônica, e depois volta a enfatizar que "o cumprimento da lei é o amor" (Rm 13.10).

OS REFORMADORES DO SÉCULO 16

Lutero entendia as ações de Deus em termos dialéticos e nisso via contraste entre a lei e o evangelho. A lei é a expressão máxima da vontade de Deus. Esse conceito é também defendido pelos judeus, e Calvino segue a mesma linha de pensamento. Segundo Lutero, a lei tem duas funções primárias. A primeira é coercitiva, restringe o perverso e mantém a ordem na sociedade, essa é a lei civil. A outra função da lei é teológica. A lei é santa e perfeita, foi dada para a vida, mas a distância entre sua santidade e a incapacidade humana de cumpri-la faz da lei uma palavra de julgamento. O que era para a vida transformou-se em morte. A função teológica exige do homem algo que lhe é impossível: cumprir a lei totalmente. Mas a lei permite ao homem conhecer o seu pecado, obter o conhecimento de si mesmo com a ajuda do Espírito Santo e em seguida obter o conhecimento de Deus. A lei não salva, mas é um meio de nos levar a Cristo; só é conhecida a partir do evangelho, e o evangelho se torna incompreensível sem ela.
Zuínglio classificava os preceitos da lei em morais, civis e cerimoniais. Os preceitos civis tratam de questões humanas particulares, os cerimoniais foram dados para o período antes de Cristo, e os preceitos morais foram resumidos no Novo Testamento na lei do amor. Para Zuínglio, a lei moral expressa a vontade eterna de Deus e por essa razão não pode ser abolida. Os cristãos estão sujeitos à lei do amor. Assim, a lei e o evangelho têm a mesma essência, são praticamente os mesmos. Zuínglio discordava de Lutero nesse ponto e também da ideia de que a função da lei era ser uma palavra de julgamento de Deus sobre o ser humano, mas dizia que ela estabelece a vontade e a natureza da Deidade.
Calvino trata o assunto no volume 2 de suas Institutas. A redenção prometida em Cristo está presente na lei cerimonial. O valor de todo o ritual do tabernáculo está na sua presença messiânica; o sacrifício e todo o serviço sagrado dos sacerdotes são aceitáveis diante de Deus porque tudo isso aponta para a pessoa e a obra de Cristo. Todos esses preceitos cerimoniais já se cumpriram. Calvino via um tríplice propósito na lei moral, a saber: mostrar o pecado, restringir o perverso e revelar a vontade de Deus. Na sua interpretação, Cristo aboliu a lei cerimonial. A lei moral é a expressão da vontade de Deus; essa vontade jamais pode ser mudada, de modo que a lei nunca pode ser abolida. Cristo aboliu a maldição da lei, e não a sua validade. Assim, Calvino considera a ideia de os cristãos não estarem sujeitos à lei como doutrina antinomianista(Antinomismo). O Senhor Jesus tornou explícito o que estava implícito no discurso do Sermão do Monte, e isso significa que a lei de Cristo não é outra senão a lei de Moisés. Assim como Cristo é o centro do Antigo Testamento e o Novo é a consumação desse fato, há entre ambos testamentos uma sólida continuidade. Trata-se de um relacionamento de promessa e cumprimento.

AVALIAÇÃO BÍBLICA

Parece que a ideia de lei moral, lei cerimonial e lei civil é usada como permissão para que cada um interprete o termo "lei" conforme seu entendimento e conveniência. Uns afirmam que a abolição foi da lei cerimonial e civil, mas que a lei moral é eterna e nunca pode ser abolida. Convém ressaltar que a visão tripartida da lei não deriva do Novo Testamento. É verdade que existem preceitos de caráter moral que são para todos os povos e em todas as épocas, e que outros são para um povo e uma época. Mas em nenhum lugar do Novo Testamento no qual aparece o termo "lei" afirma-se que essa lei é moral, cerimonial ou civil. O que significa quando o Senhor Jesus declara que não veio destruir a lei, mas a cumprir? Ou quando o apóstolo Paulo afirma que não estamos debaixo da lei, mas da graça? Ou ainda quando diz que a lei foi abolida por Cristo?
Jesus disse que veio cumprir a lei: "Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido" (Mt 5.17, 18). Ainda há muitos expositores do Novo Testamento que tropeçam nessa passagem. A ideia aqui não é confirmar ou estabelecer a lei ou os profetas por meio da vida e do ensino de Jesus. O verbo grego para "destruir" é katalyo,m "destruir, revogar, invalidar". A antítese é "destruir" e "cumprir". O Senhor Jesus não fala em "observar ou guardar", mas em cumprir a lei ou os profetas.

O verbo grego usado aqui para "cumprir" é plêroõ, que significa "encher, preencher, completar", cuja ideia original é espacial (Mt 13.48; At 2.2). Esse verbo aparece 87 vezes no Novo Testamento como "finalizar, terminar, tomar algo completo, pleno” e nunca como "estabelecer" ou "confirmar". O Léxico Grego-Português do Novo Testamento de Louw & Nida traduz esse verbo em Mateus 5.17 como "dar o sentido completo": "Não vim para destruir, mas para dar o seu sentido completo" (2013, p. 362 [33.144]). Se o sentido de plêroõ aqui for de "completar", então Jesus está afirmando ser a plenitude da revelação. De fato, a revelação divina se consumou nele (Hb 1.1,2). Mas a interpretação mais aceita é de que se trata do cumprimento das profecias do Antigo Testamento na vida e no ministério do Senhor Jesus (Mt 1.22; 2.17,19; 4.14; Lc 4,21; Jo 19.36).
A ideia cristológica não se restringe a esses vaticínios e ocupa todo o pensamento das Escrituras hebraicas. A provisão do Antigo Testamento sobre a obra redentora de Deus em Cristo é muito rica de detalhes. Os escritores do Novo Testamento reconhecem a presença e a obra de Cristo na história da redenção (Os 11.1; Mt 2.15) e nas suas instituições e festas (Êx25.8; Jo l.l4;Hb5.4,5;Êx 12.3-13; Lc 22.15; 1 Co 5.7). A lei e os profetas convergem para Jesus; ele é o cumprimento das Escrituras do Antigo Testamento (Lc 24.26,27,44).
A expressão "a lei e os profetas" aparece com frequência no Novo Testamento para designar as Escrituras do Antigo Testamento (Mt 7.12; 22.40; At 13.15; Rm 13.21) ou fraseologia similar (Mt 11.13; Jo 1.45; At 28.23). Mas a presença do "ou" disjuntivo aqui mostra duas partes distintivas, em que nem uma e nem outra é para ser abolida (Jo 10.35). Aqui não se trata apenas dos preceitos morais, e o Decálogo nem sequer é mencionado no Novo Testamento como tal. Jesus fala ainda a respeito da existência de mandamentos menores: "Qualquer, pois, que violar um destes menores mandamentos" (Mt 5.19). Isso por si só invalida a interpretação de que a lei é uma referência aos preceitos morais. Existem mandamentos menores entre os preceitos morais? A resposta é não. Jesus, portanto, está se referindo a todo o sistema mosaico e às demais Escrituras do Antigo Testamento.
O jota se refere ao yõd (’),a menor letra do alfabeto hebraico; ocupa a metade da linha na escrita. O til, keraia,139 em grego, "tracinho, parte de uma letra, acento" (Lc 16.17), é um sinal diacrítico para distinguir uma letra da outra, por exemplo D/n; ~l/7; PI/D. A autoridade da lei permanece mantida até no "menor traço." E o termo "lei" no Novo Testamento, às vezes, se estende a todo o Antigo Testamento (Jo 10.34; Rm 3.19; 1 Co 14.21). Parece que o Senhor Jesus se refere aqui às Escrituras, de qualquer forma, seja a lei ou todo o Antigo Testamento, o certo é que não se trata apenas da lei moral. Sua validade se estenderá até o fim das eras. Isso significa até "que tudo seja cumprido". O verbo grego usado aqui para "cumprir" não é o mesmo do versículo 17, mas gínomai, "ser, tornar, vir a ser, acontecer", eõs panta genêtai, "até que todas essas coisas aconteçam" (Mt 5.18b). Logo, não se trata aqui de obediência aos mandamentos; essas palavras não significam obedecer à lei. A ideia é até que todas essas coisas aconteçam. A lei aqui, portanto, não se refere à Torá nem aos mandamentos, mas a todo o Antigo Testamento, que é a base do Novo, e seus ensinos perduram enquanto existirem os céus e a terra.
Voltando ao "menor dos mandamentos", ele é muito importante porque é parte da lei de Deus. O discípulo que declarar insignificante ou não observar o menor desses mandamentos será chamado de menor no reino dos céus, mas o que o cumprir e o ensinar aos outros será considerado grande no reino dos céus (Mt
5.19). Aquele que violar ou abolir esses pequenos mandamentos ocupará uma posição inferior (1 Co 3.12-15). Não significa ficar excluído da felicidade eterna. Agostinho de Hipona, Lutero e Calvino concordam com essa linha de pensamento.
A justiça dos escribas e fariseus era da letra da lei, artificial, externa e formalista. Mas os discípulos de Jesus receberam o Espírito Santo; assim, a justiça deles é interna e profunda, impressa no coração e na alma de cada um com a regeneração (2 Co 5.10). É cumprimento da promessa de Deus desde os profetas (Jr 31.33; Ez 36.27). Por essa razão, o procedimento do cristão precisa superar a conduta dos escribas e fariseus (Mt 5.20).
Outra interpretação inaceitável é a que afirma que a lei cerimonial e a lei civil foram abolidas, mas não a lei moral. O apóstolo Paulo afirma que a lei era transitória (2 Co 3.7-14) e, ao dizer isso, ele inclui as duas tábuas de pedras: "E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, veio em glória, de maneira que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos na face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, a qual era transitória" (2 Co 3.7). O primeiro concerto foi feito com Israel no monte Sinai com a manifestação do próprio Deus diante de todo o povo, e Moisés foi o mediador desse pacto, conforme registra o capítulo 24 de Êxodo. As tábuas da lei com as dez palavras foram entregues num cenário de glória (Êx 19.1-20.22). Já escrevemos sobre isso no primeiro capítulo. A face de Moisés brilhava quando ele descia do monte (Êx 34.30-35).
Javé deu as dez palavras a Israel para que povo aprendesse a andar com Deus, mas as sanções aplicadas aos transgressores no sistema mosaico eram severas. A lei foi dada para a vida (Lv 18.5; Mt 19.17), mas a incapacidade do ser humano em obedecer transformou-a em morte (Rm 7.10). Paulo chama a lei de "ministério da morte" ou "que traz a morte” (NTLH), apesar de ser ela santa "e o mandamento santo, justo e bom" (Rm 7.12). Contudo, a lei não podia ajudar o israelita a praticar a justiça. Stanley M. Horton a compara a um termômetro que pode medir a temperatura mas não gera nem calor nem frio. A lei mensura a justiça e a injustiça, mas não ajuda a tomar alguém justo ou injusto. O problema está no pecado humano.

O código escrito é externo, a obediência a ele pode ser artificial, mas a obra do Espírito é interna, transforma o coração humano e provoca no cristão o desejo de fazer a vontade de Deus. Assim, explica o apóstolo, esse ministério era transitório. Por isso o apóstolo fala dessa antítese: "a letra mata, e o Espírito vivifica" (2 Co 3.6). A lei veio em glória; mas, sendo ela transitória, "como não será de maior glória o ministério do Espírito?" (2 Co 3.8). Isso mostra que os mandamentos ensinados por Jesus no Novo Testamento superam com larga vantagem os preceitos do Decálogo e de todo o Antigo Testamento (2 Co 3.8, 9).
"Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça. Pois quê? Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum!" (Rm 6.14, 15). Todos nós sabemos que a lei e a graça são princípios opostos (Jo 1.17). Estar debaixo da lei significa aceitar a obrigação de guardá-la e isso implica maldição ou condenação. O apóstolo Paulo declara: "Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque escrito está: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las" (Gl 3.10). A lei de Moisés é um livro e não duas tábuas de pedra, então o apóstolo está se referindo a todo o Pentateuco. Dizer que se trata aqui da lei cerimonial ou civil nos parece uma camisa de força. Estar debaixo da graça significa reconhecer a dependência exclusiva de Cristo para a salvação.

Considerações finais

Nem o Senhor Jesus nem os seus apóstolos ensinaram o Decálogo. Jesus teve oportunidade em mais de uma ocasião de mencionar os Dez Mandamentos, mas não o fez. Não há tal menção no Novo Testamento, a não ser a citação de preceitos nele contidos. O seu reconhecimento como revelação de Deus e Escritura divinamente inspirada, como expressão máxima da vontade de Deus, é indiscutível. Jamais devemos nos esquecer de que o Antigo e o Novo Testamento vieram do mesmo Deus. Mas sua função na história da redenção humana não deve ser confundida. Assim, o Decálogo tem o mesmo valor das outras partes do Antigo Testamento para o cristianismo.
Devemos obedecer à lei? Tem ela domínio sobre nós? O apóstolo Paulo responde a essas duas perguntas: "Mas, agora, estamos livres da lei, pois morremos para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra" (Rm
7.6). O cristão jamais deve praticar o que a lei proíbe, pois, apesar de estarmos libertos dela, essa liberdade significa que estamos livres para servir, e não para pecar. Somos servos de Cristo e não da lei, e queremos servir a ele, visto que estamos debaixo da graça não para produzir a salvação, mas porque o Espírito nos guia na obediência.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Não Adulterarás - Ev. José Roberto A. Barbosa


Texto Áureo Mt. 5.28 - Leitura Bíblica  Ex. 20.14; Dt. 22.22-30

Prof. Ev. José Roberto A. Barbosa
Twitter: @subsidioEBD
INTRODUÇÃO
Nesta aula estudaremos o sétimo mandamento, que trata a respeito do adultério. Esse é um assunto bastante apropriado, principalmente nos dias atuais, nos quais a sociedade decidiu endeusar o sexo. Inicialmente identificaremos as implicações de uma sociedade sexualizada, em seguida, mostraremos que o adultério continua sendo pecado, e ao final, daremos orientações cristãs que conduzam ao arrependimento, e a uma vida de santidade na vida sexual.
1. SOCIEDADE SEXUALIZADA
Deus criou o ser humano para o sexo, negar essa dádiva divina não é bíblico. Na verdade, antes mesmo da Queda, o Senhor orientou Adão e Eva para que “fossem fecundos” (Gn. 1.28). O livro bíblico de Cantares, geralmente alegorizado, reporta a beleza do sexo no casamento (Ct. 1.2-16). O ato sexual, no contexto geral das Escrituras, deve existir dentro do casamento (Pv. 5.15-19). Para o escritor da Epístola aos Hebreus, o matrimônio e o leito sem mácula devem ser considerados (Hb. 13.4). No casamento, o sexo é devido aos cônjuges, de modo que o marido e a mulher devem se entregar um ao outro, também evitando que o outro venha a pecar (I Co. 7.3).  Isso deve ser levando em conta porque o sexo é uma necessidade, e se realizado dentro do casamento é uma benção de Deus. Contudo, por causa da natureza pecaminosa, o ser humano tem uma propensão para desvirtuar os projetos de Deus. Assim, o sexo, que deveria ser para o prazer, e também procriação, acabou fugindo do seu objetivo. Por isso, Na Antiga Aliança, Deus proibiu o adultério, sendo este punido com a morte (Lv. 20.10). A intenção desse mandamento é proteger a família, evitando que os cônjuges se entregam à devassidão, comprometendo a felicidade no lar. A cultura da sexualidade, que se propaga na sociedade moderna, está destruindo muitos casamentos. A mídia explorada demasiadamente a sexualidade, transformando-a não em Eros, como destacou C. S. Lewis, mas em Vênus. A ênfase exagerada que é posta no sexo, o transformou em algo irresponsável, objetivando apenas o prazer. A psicologia materialista moderna nivelou os seres humanos a simples animais, que não buscam outro interesse na vida a não ser o prazer sexual..
2.  O PECADO DO ADULTÉRIO
Por causa da ênfase no sexo como um fim em se mesmo, o adultério está se alastrando na sociedade. O número de casamentos desfeitos por causa desse pecado tem aumentado consideravelmente. Nesses últimos tempos, com o advento das mídias sociais, a adultério está sendo semeado através da internet. Os recursos das redes sociais, caso sejam usados indevidamente, sem as devidas precauções conjugais, podem contribuir para o adultério. O acesso à pornografia também tem causado estragos em vários relacionamentos conjugais. Há cônjuges que estão viciados nessa prática, e por causa dela estão idealizando o ato sexual. A pornografia é perigosa porque vicia, e ao invés de levar a pessoa a querer sempre mais, como acontece com os outros tipos de vícios, faz com que queiram cada vez mais o diferente. Por causa disso, pessoas que se iniciaram na pornografia, vendo imagens que consideravam simples, findaram em experiências horrendas. É perigoso se deixar levar pela luxúria, por causa dela muitos perderam não apenas a vida, mas também a alma (Pv. 6.25,26). Há homens e mulheres que estão brincando com fogo, achando que uma aventura não fará mal ao casamento (Pv. 6.27). Muitos que decidiram apenas “se divertir por um pouco” acabaram em desgraça e vergonha (Pv. 6.33,33). Até mesmo o rei Davi, por deixar de vigiar nessa área, pecou contra o Senhor (II Sm. 11.2). Os homens devem ter cuidado com os olhos, pois é possível que através deles venha o adultério (II Pe. 2.14). Como Jó, devem fazer um concerto com eles, para não coloca-los em mulheres que possam desvirtuá-los da fé (Jó. 31.1). O investimento na sexualidade sadia, dentro do casamento, previne o pecado do adultério (Pv. 5.15-20). Não devemos esquecer que o casamento é um mistério, homem e mulher se tornam uma só carne no ato conjugal (Ef. 5.31,32). Aqueles que entregam seu corpo a outro, que não seja o seu cônjuge, estão profanando o templo do Senhor (I Co. 6.13,15).
3. NÃO ADULTERARÁS
O adultério está se tornando cada vez mais natural, em alguns contextos pós-modernos chega a ser motivado, como demonstração de uma suporta liberdade sexual. Antigamente a prática do adultério era criminalizada pelo código jurídico brasileiro. Para Jesus o adultério continua sendo pecado, ele ampliou seu alcance ao explicar que se alguém cobiçar uma mulher em seu coração cometeu adultério com ela (Mt. 5.27,28). Na medida em que deixam de atentar para as palavras do Senhor, as pessoas acabam se acostumando com a infidelidade conjugal. Existem até aquelas que justificam seu pecado, argumentando que “a carne é fraca”. É bíblico que a carne é fraca (Mt. 26.41), mas também que é preciso andar no Espírito (Gl. 5.16). Quanto mais investimos no Espírito, menos propensos nos tornamos ao controle da carne. Aqueles que estão envolvidos nesse tipo de pecado precisam se arrepender e buscar o perdão. Como Davi, devem reconhecer que estão distanciados de Deus e que pecaram contra o Senhor (II Sm. 12.13). A confissão do pecado de Davi se encontra no Sl. 51, nesse texto bíblico o monarca abre seu coração, e clama pelo perdão e misericórdia divina. A igreja de Corinto se encontrava em uma sociedade não muito deferente da que nos encontramos atualmente. Por causa disso, estava vulnerável à carnalidade. Paulo reconheceu que entre eles haviam muitos que vinham de experiências sexuais pecaminosas. Mas essas pessoas, depois que se arrependeram, e se voltaram para o Senhor, foram justificadas no nome do Senhor Jesus (I Co. 6.11).
CONCLUSÃO
Há esperança para aqueles que se entregaram ao pecado do adultério, certa mulher foi flagrada nesse tipo de transgressão. Os acusadores quiseram apedrejá-la, mas Jesus interviu em seu favor, perdoando os seus pecados. As palavras do Senhor, para aquela mulher adúltera, se aplicam àqueles que se arrependem: “nem eu tampouco de condeno, vá e não peques mais” (Jo. 8.10,11). Portanto, para alcançar a misericórdia do Senhor é preciso confessar o pecado e abandoná-lo (Pv. 28.13).
BIBLIOGRAFIA
KALAS, J. E. The ten commandments from the back side. Nashville: Abingdon Press, 1998.
RYKEN, P. G. Os dez mandamentos para os dias de hoje. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Não Tomarás o nome do Senhor em vão - Lição 5




As informações sobre cada um dos dez mandamentos do Decálogo são fornecidas ao longo do Pentateuco e em muitos casos em toda a Bíblia, e aqui não é diferente. O texto não expressa de maneira explícita, mas deixa claro que diz respeito a tudo o que se refere ao nome de Deus. Há expositor que exagera ao dizer que não é possível saber o que este mandamento quer dizer com as palavras: "Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão" (Êx 20.7; Dt 5.11). O contexto bíblico esclarece o que Deus está nos ensinando e mostra a abrangência do referido mandamento. Fala sobre o uso de modo trivial do nome divino, proibindo o perjúrio e toda a forma de profanação e blasfêmia do nome de Javé.

O NOME "DEUS"
Os nomes de Deus não são apenas uma identificação pessoal, mas são inerentes à sua natureza e revelam suas obras e seus atributos. Não é meramente uma distinção dos deuses das nações pagãs. Quando a Bíblia faz menção do "nome de Deus", está revelando o poder, a grandeza e a glória do Deus Todo-Poderoso; além de mostrar seus atributos, o nome representa o próprio Deus. O nome de Deus está ligado à sua soberania e glória.
Há três diferentes palavras hebraicas no Antigo Testamento para "Deus": ’êl, ’elõahe ’èlõhím.AA A Septuaginta emprega o termo grego theos, "Deus", para esses três vocábulos. Eles aparecem como nome pessoal do Deus de Israel e também como apelativos quando se referem aos deuses nas nações, razão pela qual costumamos empregar a expressão "nomes genéricos".

O termo êl tem relação com ’il, ’ilu e palavras similares usadas para deidades dos antigos povos semitas. Aparecem com frequência ilu[m], ’iltu (fem.), ’ilü (pl.) nos documentos da Mesopotâmia, em acádico,45 como nomes próprios e também como apelativos de deidade. Diversas etimologias já foram apresentadas pelos estudiosos, mas a proposta que prevalece é que ’il se deriva de uma raiz que significa "ser forte" ou "ser proeminente". É um "termo semítico muito antigo para divindade" (HOLADAY, 2010, p. 20), usado para identificar o Deus de Israel (Nm 23.8).

No Antigo Testamento, há 238 ocorrências de ’êl e ’êlim, (pl.) juntos, como nome alternativo de Javé (Êx 20.5; Dt 4.24; 5.9); como o próprio Deus de Israel: ’êl 'êlõhêi ysrãêl,46 "Deus, o Deus de Israel" (Gn 33.20) ou "El-Elohei-Israel" (TB); ’ãnôchi hã - ’

É usado também com frequência em ugarítico, mas aparece ainda em relação ao Deus de Israel e a seus atributos, como: "Deus da vista" (Gn 16.13); "Deus eterno" (Gn 21.33); "Deus zeloso" (Êx 20.5; 34.14); "Deus, a minha rocha” (Sl 42.9); e Deus de compaixão (Sl 99.8) etc. O substantivo ’êl e o seu plural, ’êlím, aparecem como apelativos para designar os deuses das nações (Êx 15.11; 34.14; Dt 32.12). É o nome mais usado na Bíblia para mencionar as divindades pagãs.

O nome ’elõhím é plural de 'elõah e, segundo se diz, trata-se de uma forma expandida de ’

O nome Elohim apresenta os primeiros vislumbres da Trindade. A declaração de Gênesis 1.1 traz o verbo no singular, "criou", e o sujeito no plural Elohim, "Deus", o que revela a unidade de Deus na Trindade. Construção similar aparece em várias partes do Antigo Testamento: "E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" (Gn 1.26); "Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós" (Gn 3.22); "Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua" (Gn 11.7). A Trindade é vista em Elohim à luz do contexto bíblico. O Novo Testamento explicitou o que antes estava implícito no Antigo Testamento. Quando Elohim refere-se às divindades falsas traz no plural o verbo, o pronome ou o adjetivo, representando a multiplicidade. Quando, porém, aplicado ao Deus de Israel, o verbo e o seus complementos vêm geralmente no singular.

Os rabinos reconheceram a pluralidade neste nome, mas, como o judaísmo é uma religião que defende o monoteísmo absoluto, e não admite Jesus Cristo como o Messias de Israel, fica difícil para eles entenderem essa pluralidade. Para explicá-la, argumentam ser um plural de majestade, mas isso é uma determinação rabínica posterior. A definição de plural de majestade ou de excelência, como disse, foi dada pelo rabinato posterior. Disse Shlomo ibn Yitschaki, conhecido pela sigla RASHI, grande rabino e erudito judeu (nascido em 1040): "O plural de majestade não significa haver mais de uma pessoa na divindade". Essa declaração serviu para o judaísmo prosseguir sua marcha mantendo o monoteísmo absoluto sem Jesus e sem o Espírito Santo.

No relato da criação e em muitas outras passagens do Antigo Testamento, Elohim é nome próprio usado como forma alternativa de Javé. Segundo Umberto Cassuto,62 esse nome é usado para se referir à ideia obscura e mais abstrata da deidade, de um Deus universal e Criador do mundo, indicando a transcendência da natureza de Deus; ao passo que Javé aparece quando as características estão claras e concretas e sugere um Deus pessoal que se relaciona diretamente com o povo.
No capítulo um de Gênesis, Deus aparece como o Criador do universo físico e como o Senhor do mundo, exercendo domínio sobre todas as coisas. Tudo quanto existe veio à existência por causa exclusiva de Seu fiat, sem qualquer contato direto entre Ele e a natureza. Portanto, aplicando-se aquelas regras, aqui cabe o uso do nome Elohim (CASSUTO, 1961, p. 32).

Elohim é um dos nomes próprios de Deus, mas aparece como apelativo no Antigo Testamento quando se refere a divindades falsas, por exemplo os deuses do Egito (Êx 12.2) e de outras nações (Dt 13.7,8; Jz 6.10). A palavra é usada com relação às imagens dos cultos pagãos (Êx 20.23). As Escrituras fazem uso irregular de Elohim em referência a seres sobrenaturais (1 Sm 28.13) e juizes (SI 82.6). Aparece também, cerca de 20 vezes, com relação às divindades pagãs individuais.

ELION, SHADAI E ADONAI
O Antigo Testamento emprega outros nomes para identificar o Deus Javé de Israel. São eles: ‘elyôn, "Altíssimo"; shadday, "Todo-poderoso" e ’ãdhonãy,S "Senhor".
O nome composto ’êl ‘elyôn significa "Deus Altíssimo". Elion designa Deus como o Alto e Excelente, o Deus Glorioso. É um dos nomes genéricos porque ele também é aplicado a governantes, mas nunca vem acompanhado de artigo quando se refere ao Deus de Israel. Abraão adorava a El Shadai, "Deus Todo-Poderoso" (Gn 17.1); e Melquisedeque, rei e sacerdote de Salém, era adorador de El Elion (Gn 14.19-20). Quando Abraão se encontrou com Melquisedeque, descobriu que seu Deus era o mesmo de Melquisedeque, apenas conhecido por um nome diferente (êx 6.3). Em Gênesis 14.19-20, esse nome vem acompanhado de "El", mas, às vezes, aparece sozinho (Is 14.14).

O Deus de Israel é também identificado como ’êl shadday, "Deus Todo-Poderoso". Shadai é o "nome de uma deidade" (KO- EHLER BAUMGARTNER, vol. II, 2001, p. 1420). Segundo Holaday, é o nome de deidade identificado com Javé (2010, p. 514); e, de acordo com Gesenius, "mais poderoso, Todo-poderoso, um epí- teto de Jeová, às vezes com El" (1982, p. 806). Aparece 48 vezes no texto hebraico das Escrituras, sete delas antecedido de El.

Esse era um nome apropriado para o período patriarcal, durante o qual os patriarcas viviam numa terra estranha e estavam rodeados pelas nações hostis. Eles precisavam saber que o seu Deus era o Todo-poderoso (Gn 17.1). O termo aparece com frequência na era patriarcal; só no livro de Jó ocorre 31 vezes. Êxodo 6.3 nos mostra que Deus era conhecido pelos patriarcas por esse nome. Deus se revelou primeiro aos patriarcas do Gênesis com nome El Shadai e, após o Sinai, os hebreus identificaram o seu libertador Javé com o El Shadai dos seus antepassados.

As duas formas do nome hebraico ’ãdhonay ou ’ãdhônay ,54 "o Senhor, Adonai", aparecem no Antigo Testamento com "o" breve e com "o" longo (Is 6.1; Jz 13.8). O termo ocorre quase 450 vezes no Antigo Testamento, 310 vezes em conexão com o tetragrama e 134 vezes sozinho. É um nome próprio e significa literalmente "meu senhor" e, segundo Gesenius, é "somente usado para Deus" (1982, p. 12); forma "reservada como uma designação para Javé" (JENNI & WESTERMANN, vol. 1, 2001, p. 24). Adonai, "Senhor", é um nome divino e expressa a soberania de Deus no Universo. A desinência -ay indica plural, como acontece com o nome Elohim; o judaísmo considera Adonai comopluralis excellentiae. É diferente de ’ãdhôn,S5 "senhor, dono", referindo-se geralmente a homens, ou com o sufixo ’ãdhõní,s6 "meu senhor", forma pela qual Sara se dirigia a Abraão e Ana se dirigia a Eli (Gn 18.12; 1 Sm 1.15, 26).

Javé, o nome pessoal do Deus de Israel, é escrito pelas quatro consoantes mrP (YHWH) — o tetragrama. A escrita hebraica foi usada durante todo o período do Antigo Testamento sem as vogais. Elas nada mais são do que sinais gráficos diacríticos, criados pelos rabinos entre os séculos 5 e 9, e que são colocados sobre, sob e no meio de cada consoante. Até hoje, esses sinais ajudam muito na leitura de qualquer texto hebraico; todavia, quem já conhece a língua não precisa mais deles.

Êxodo 3.14 revela que Deus é o que tem existência própria, ou seja, existe por si mesmo. É o imutável, o que causa todas as coisas, é autoexistente, aquele que é, que era e o que há de vir, o eterno. Até hoje, os judeus religiosos preferem chamar Deus de "O ETERNO", como se encontra na edição de 1988 da Bíblia na Linguagem de Hoje e na edição da Sêfer da Bíblia Hebraica em lugar do tetragrama. Aqui, Deus explicou a Moisés o significado do nome Iavé.

Desde o patriarca Abraão até ao período do reino dividido, era costume invocar a Javé mediante o uso do seu nome (Gn 12.8; 13.4; 21.33; 1 Rs 18.24). Era necessário conhecer o nome para que se pudesse estabelecer um relacionamento de comunhão. Veja que Jacó perguntou ao anjo com quem lutava o seu nome (Gn 32.29). Manoá, o pai de Sansão, fez a mesma pergunta com o propósito de estabelecer um relacionamento espiritual (Jz 13.11- 17). Com Moisés, não foi diferente:
Então, disse Moisés a Deus: Eis que quando vier aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU.

Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O SENHOR, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração (êx 3.13-15).

Javé estabeleceu um memorial ao seu nome, anunciado aqui, mas concretizado por ocasião da promulgação da lei, quando foi oficializado o concerto do Sinai (Êx 20.24). Aqui está a base do tetragrama YHWH. No texto hebraico, encontramos a frase ’ehyeh asher 'ehyeh;57 "EU SOU O QUE SOU". A substituição do “y” de ‘ehyeh pelo w do tetragrama vem de hãwãh,58 forma arcaica e sinônimo de hãyâh,59 "ser, estar, existir, tornar-se, acontecer", cuja primeira pessoa do imperfeito60 é ‘ehweh, e cuja terceira pessoa é yhweh.
Na poesia hebraica, usa-se com frequência a forma reduzida Yah. "Já é o seu nome; exultai diante dele" (Sl 68.4, TB).61 Isso pode explicar a presença da letra "a" no nome Yahweh. "Parece provável que a pronúncia original tenha sido YaHWeH, tanto por causa da forma verbal correspondente, o imperfeito de hãwãh, arcaicamente escrito yahweh, como de representações mais recentes desse nome em grego pelas palavras iaoue e iabe" (HAR- RIS; ARCHER, JR.; WALTKE, 1998, p. 346).

A partir de 300 a.C. o nome Adonai passou gradualmente a ser mais usado que o tetragrama até que o nome Javé tornou- -se completamente impronunciável pelos judeus. Para evitar a vulgarização do nome e para que a forma não fosse tomada em vão, eles pronunciavam por reverência ’ãdhonãy cada vez que encontravam o tetragrama no texto sagrado, na leitura da sinagoga. Na Idade Média, os rabinos inseriram no tetragrama as vogais de adhonay (HARRIS; ARCHER, JR.; WALTKE, 1998, p. 347).

As vogais de 'HS ( adõnãy) são (,=«);( = o) e (., = ã). Elas foram inseridas no tetragrama sagrado, resultando na seguinte forma: nin\ O resultado disso é a pronúncia "YeHoWaH". Mas os judeus ainda hoje pronunciam "Adonai" para lembrar na leitura bíblica na sinagoga que esse nome é inefável. Esse enxerto no tetragrama resultou no nome híbrido YEHOWAH, que a partir de 1520 os reformadores difundiram como "Jeová". A forma híbrida "Jeová" não é bíblica, mas foi assim que o nome passou para a cultura ocidental; aos poucos, contudo, esse nome vem sendo substituído pela forma Iavé ou Javé.
Os nomes Adonai e Javé são tão sagrados para os judeus que eles evitam pronunciá-los na rua ou no cotidiano. O segundo nem mesmo nas sinagogas é pronunciado, e no dia a dia eles chamam Deus de há-shêm,62 "o Nome" (Lv 24.11, TB; 2 Sm 6.2).

Nos manuscritos da Septuaginta, encontramos kyrios,63 "dono, senhor, o Senhor" (BALZ & SCHNEIDER, 2001, vol. I, p. 2437), no lugar de ’ãdõnã(y) e yhvh. Alguns fragmentos gregos de origem judaica apresentam o tetragrama, mas outros usam kyrios. Isso não é novidade. Jerônimo (347-420) "conhece a prática de, em manuscritos gregos, inserir o nome de Deus (Yahweh) com caracteres hebraicos" (WÜRTHWEIN, 2013, p. 262). A Septuaginta, como tradução, foi submetida a revisões e recensões e, por isso, até hoje ninguém sabe qual foi exatamente o texto original ou o que foi alterado no transcorrer dos séculos. Uns afirmam que o nome kyrios é original: "Assim, no contexto de uma revisão arcaizante e hebraizante, o tetragrama parece ter sido inserido na tradução antiga no lugar de Kyrios" (op. cit., p. 262). Mas, para outros, é de origem cristã ou teria vindo dos judeus. O certo é que ambos foram usados desde a origem da tradução.

O QUE SIGNIFICA TOMAR 0 NOME DE DEUS EM VÃO?
Há diversas interpretações sobre o terceiro mandamento do Decálogo. Tomar o nome de Deus em vão, em hebraico, lashshãw‘,64 "em vão" (êx 20.7; Dt 5.11), fala sobre a honra e a santificação do nome de Deus. O termo shaw ‘ aparece 52 vezes no Antigo Testamento e seu significado é vasto: "fraude, engano, inutilidade, inútil, imprestável, falsidade, desonestidade, futilidade, vacuidade". Seguem alguns exemplos: sem valor, "trazer ofertas vãs” (Is 1.13, ARA); sem resultado, "De nada adiantou castigar" (Jr 2.30, NVI); palavras vazias, falsas, "confiam na vaidade" (Is 59.4) ou "confiam no que é nulo" (ARA); informação falsa, falsa testemunha (Êx 23.1; Dt 5.20); além de "vaidade" ür 18.15), usado em relação aos ídolos.

Alguns expositores afirmam que o significado original dessa palavra era a magia: "É possível de se imaginar que também em Israel houve épocas de propensão a fazer uso do nome de Javé para fins de práticas obscuras e nocivas à comunidade" (RAD, 2006, p. 181). No entanto, parece que o cerne deste mandamento é proibir o costume de juramento falso, pois o verdadeiro juramento se fazia mediante a invocação do nome de Deus (Lv 19.12). Era uma necessidade imperiosa que todos falassem a verdade, como o dever de cada um honrar o compromisso assumido com os homens e diante de Deus.

É dever de todos cumprir os votos feitos a Deus; a lei é clara sobre essa responsabilidade (Nm 30.2; Dt 23.21). Essa exigência divina se faz necessária por causa da inclinação humana à mentira. Era grande a falsidade no relacionamento entre familiares e amigos. Ninguém podia confiar em ninguém, já que a falta de sinceridade era a marca do povo. Não era uma questão de desvio ocasional, mas de estilo de vida (Jr 9.2-5). Uma sociedade não pode viver numa decadência dessa; a vida se torna insuportável.

Mas as autoridades religiosas de Israel classificaram os juramentos em duas categorias: os que podiam ser descumpridos e os que não podiam. Há uma lista deles em Mateus 5.33-37; 23.16- 22. O Senhor Jesus reprovou com veemência essa violação dos escribas e fariseus. A interpretação rabínica da época permitia violar o terceiro mandamento e fazer de conta que ele não havia sido violado.

O terceiro mandamento é um apelo à santificação do nome de Deus. Na oração "Pai Nosso", Jesus nos ensinou a abrir a oração santificando o nome de Deus: "Santificado seja o teu nome" (Mt 6.9). Isso nada tem que ver com a pronúncia do nome Javé. Os teólogos das testemunhas de Jeová estão equivocados ao defenderem a doutrina da vindicação do nome Jeová, pois o tetragrama nem mesmo aparece no texto grego do Novo Testamento. Deus é absolutamente santo, sua santidade é infinita e inigualável; ele é santo em si mesmo, em sua essência e natureza. Assim, as palavras de Jesus estão fundamentadas no Antigo Testamento (Sl 30.4; 97.12; 111.9; Is 29.23; Ez 36.20-23). Tal atributo é a característica prima de Javé, e isso expressava o pensamento do povo. O mandamento não visa tornar o nome de Deus santo, pois ele já é santo, mas significa reconhecer e reverenciar a Deus pelo que ele é. Não se trata de uma petição para que o povo em geral reconheça isso, mas para que expresse a reverência que a sua santidade exige (Lv 11.44; 19.2; 20.7; 1 Pe 1.16).

                                              Pr. Esequias Soares